sábado, 9 de fevereiro de 2013


Foto: Corra,Corra aproveite em quanto ainda tem suas pernas!!

~thamy

ELDIKA DECIDE VIVER.


“sei lá se fornicação é pecado”, isto disse Eldika, uma mão no volante de seu Fiat Premium e outra no câmbio, justamente passando da quarta para a quinta marcha. “há tantas regras para tão pouca alegria”, ela está neste  jogo desde que saiu de casa: colocava as questões que respondia para si mesma. Eldika concordou em ir até a casa de seu ex-marido naquele dia. apesar da separação eles continuaram amigos, inclusive é para ela que Elluardo pede ajuda no caso de uma emergência qualquer. “ele continua morando sozinho, mas é o rei da masturbação”, Eldika fala isso sarcasticamente, sorrindo, imaginando Elluardo tendo de fechar os olhos e pensar nela enquanto se entretém no velho jogo do auto-entretenimento, “bem feito, quem deu motivos para ficar só foi ele mesmo... esse cabeça dura!”, Eldika também se culpa um pouquinho pela separação. ela agora tem pressa. e se arrepende de ter saído tão cedo para pegar esta estrada na montanha. onde. ela sente uma pontada de náuseas, ao meio das muitas curvas, ali tudo lhe parece tão igual. “uma fábrica de nuvens”, isto Eldika pensava que eram as montanhas e as serras distantes de sua infância. em meio à neblina ela dirige com pressa. pisando fundo no acelerador. tudo para chegar mais rápido. Elluardo não era seu inimigo, muito pelo contrário. ele era mais amigo dela do que qualquer outra pessoa. mas quem era ele? moravam na mesma cidade. ele era o filho do alfaiate mais famoso da região. Eldika se lembra dele também jovem, quando ainda nem eram namorados nem nada. Elluardo era magro e desengonçado. “um cara até, eu acho, um tanto feio”, ela sempre achou que Elluardo fosse uma pessoa com algo de desabitado dentro dele: “ele conversa tão pouco”. mas era um filho sensível. tanto que. quando seu pai morreu. Elluardo fez questão de colocar um poema na vitrine da alfaiataria: “quem era este ser? a quem todos os dias eu mantinha. um secreto ódio, uma mal-nutrida porfia?”. sob este poema Elluardo fez questão de enlaçar umas rosas muito negras, no entanto luzidias, as quais ficaram lá até secarem e desmancharem aos poucos. Eldika lhe falou à poucas horas. que sentia sua voz muito rouca e distante. “precisa de alguma ajuda, Elluardo?”, ele não respondeu à sua oferta. o fone ficou intermitentemente mudo. Eldika retirou seu carro da garagem e resoluta tomou a estrada. agora tudo ao redor da rodovia estava estranhamente azul. dava medo. mas era de um azul tão lindo. tudo se passava como se ela estivesse no fundo de um lago. onde a paisagem inteira se afogasse. impressionada Eldika força o acelerador ao máximo. por certo a estrada fica do lado de fora desta lagoa azul. tudo indica que sim. há um traçado que se apresenta de soslaio. além da mata fechada. galhos intrincados unidos. grudados em tom sobre tom de cinzas esmaecidos. imagens que correm sem parar. em ambos os lados para onde quer que Eldika dirija o seu carro. no meio de sua jornada, assim sem mais nem menos, Eldika passa a conhecer outras pessoas. são pessoas cujos nomes lhe eram bastante conhecidos. naqueles labirínticos corredores adornados por tapetes vermelhos, bastava ela bater de leve, numa porta qualquer, e um artista famoso vinha rapidamente abrir. personalidades que ela conhecia desde criança, um palhaço televisivo que ela julgava morto há mais de vinte anos, um poeta que lhe sorria, uma artista de cinema que lhe oferecia o chá da tarde. tudo isto no pano de fundo das mil e uma noites. como num passe de mágica. as pessoas notáveis se apresentavam à cada porta que se abria naquele inverossímil hotel. lá fora. entretanto. a paisagem tinha uma cor azulada muito estranha e, com todos os seres fantasmagóricos agora agrupados ao longo da rodovia, Eldika pisou no freio violentamente. para perder o controle. onde ruído de ferros retorcidos guinchavam terrivelmente. depois silêncio. um feixe estranho de luz, um miasma medonho, era para ela de nenhuma utilidade, apenas uma tonalidade estranha. ela tinha visto essa tonalidade antes, e tinha medo só de pensar o que poderia significar. momentos antes. Eldika havia visto seu próprio glóbulo ocular. uma visão surgida no espelho do carro, tudo era desagradável e frágil, mas uma dúzia de verões atrás ela foi feliz, tinha sido amada por Elluardo sobre o gramado do parque, conhecera o louco do seu marido na primavera, e mantinha o pensamento grácil sobre isto, ela tinha visto isso por um instante apenas, antes que o carro rodopiasse na estrada escorregadia, lembrou-se de sua avó, sua imagem quase esvaecida, como uma feiticeira vestindo negro, quando muitas manhãs lhe eram grátis, Eldika olhando para fora, o pequeno jardim, a correição da manhã contra a pequena janela gradeada daquele porão terrível, onde coisas sem nome, as que tinha acontecido para sua avó, ficavam estocadas. Eldika tinha na mão um crucifixo, detestava pensar que iria rezar, aquilo brilhou por um segundo, uma corrente úmida finalizada por uma imagem de marfim. ela gritou. ao redor do carro acidentado, a luz de vapor de sódio da rodovia, neblinas, passou por ela, como um arroto de cor que desmaia, um pálido raio incidia, certamente era a imaginação de Eldika que agia sem controle. uma fantasia mórbida e nada mais. quando o crepúsculo chegou ela vagamente desejou que algumas nuvens saíssem da frente do sol. tudo estava tão frio. Eldika tinha se arrastado para tentar voltar para a estrada. nada lhe obedecia. nem os passos que ouviu seguiam em sua direção. naquela paisagem gelada. tudo conspirava contra ela. no entanto. Eldika decidiu viver. ela viveria sim. e está decidido, e pronto! o fato é que. Eldika voltou. apenas por este motivo. será que a vimos de fato? no pórtico, ontem à noite, fugazmente? há algo irrecuperável, sobretudo. nas tintas novas. nem a velha casa é mais a mesma. mas a quem ela deveria procurar? Eldika decide viver. apenas por esse motivo. ela voltou.


Beto Palaio



Foto: MY Immortal

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013


 Volkswagen VW Hippie Flower Van Art Print Poster

PRECISA-SE...

PRECISA-SE DE ALGUÉM. Fazioli colocou esse anúncio no vidro traseiro de sua kombi. Embora não chamasse a atenção desse alguém que tanto procurava, nunca desanimou.  O PÃO NO FORNO. Um lembrete do dia que amanhece e perfuma a rua lateral da padaria. Fazioli estacionou sua kombi por ali enquanto se dirigia à porta principal para tomar café acompanhado de um pãozinho com manteiga.  MÚSICA AO LONGE. Ao piano o plim-plim de um pica-pau pimpão, um dejavú a mais para martelar cadências que permitam alcançar as larvas do besouro música. O momento apoteótico ardia em óleo de ferver violoncelos, marimbas, pianos, violinos e clarinetas. A QUEM INTERESSAR POSSA. Tchaikovsky tocava numa estação de rádio qualquer. Naquele momento o mundo parou para se espremer e passar pelo buraco de uma agulha. Fazioli era apenas uma criança e brincava no seu campinho de grama preferido. O som da Quinta Sinfonia de Tchaikovsky nunca mais deixaria de tocar na cabeça dele. NOCAUTE PELA ARTE. Assim como Julio Cortázar imagina que um conto é um texto que corre em poucas linhas e em alta narrativa capaz de nocautear o leitor pela energia altamente concentrada que possui, assim também acontece com a sinfonia de Tchaikovsky que faz com que o menino Fazioli imagine daquela música como sendo algo sagrado, um tipo de oração. TECLAS PARA LÁ, TECLAS PARA CÁ. Crescer não é necessariamente progredir. O progresso pressupõe fatores hereditários em uma nação que prestigia seu cidadão com chusmas de acenos lucrativos. Fazioli apenas cresceu, jamais progrediu. Esteve trabalhando como empregado em diversas empresas. Trabalhou na Steinway como separador de teclas de piano negras que eram enviadas a cada minuto para o setor de teclas brancas. Trabalhou na Fritz Dobbert como separador das teclas de piano brancas que eram enviadas a cada minuto para o setor de teclas negras. Trabalhou, finalmente, na Essenfelder onde sua tarefa era juntar as teclas negras e brancas para a manufatura de teclados completos para pianos. UMA KOMBI HIPPIE. Eis que Fazioli deixou de trabalhar para os fabricantes de piano. Ele andou um tempo de banda em banda: ia para a banda de lá, voltava para a banda de cá. Até que assumiu que os anos eram sessenta e ele tinha vinte anos de idade, algo mais que suficiente para ele comprar uma kombi e virar hippie. Os dias de folguedo e curtição estavam chegados. Manhãs de sol filtravam suas músicas—dele e da brisa—ao agora gentil oceano e suas incansáveis marolas. Uma tarde, defronte da Candelária, ele apostou com Antenor Pastinha, um professor aposentado da UFRJ, de que ele, Fazioli, poderia passar um mês sem comer e ainda levantar dinheiro com isto. Depois ele iria atravessar a Cordilheira, rumo ao Chile, e moraria na kombi pelo resto de sua vida. O ARTISTA DA FOME. Isso ele aprendeu com K. um cidadão anônimo que ele conheceu lendo O Castelo. Passou fome por um mês inteiro. Ficou verde de fome. Depois se acostumou e se tornou um faquir. Deitou em cama de pregos, montou num burro brabo, comprou ações da Petrobras e, finalmente, com dinheiro bastante para milhares de cafezinhos acompanhados de pão com manteiga, ele rumou para a Cordilheira dos Andes. O DIABO NO MEIO DO REDEMOINHO. Fazioli foi para o Chile, mas não sem antes se despedir de Antenor Pastinha. O velho amigo Antenor, cabelo ralo e branco sobrando pelas abas do eterno chapéu de feltro, sabia tudo de vida encalacrada, sendo uma pessoa ajuizada, casada, alocada e carimbada. Antenor fez votos de que Fazioli deixasse de ser faquir e voltasse a ser o garoto que amava os Beatles e os Rolling Stones. Mas veio um vento mais forte e levou embora a papelada que Antenor Pastinha carregava em sua pasta de couro negro. Antenor, o ex-professor da UFRJ, correu atrás da papelada e nem viu que no meio do imenso redemoinho que se formou na praça, um moço cabeludo entrara na kombi e zarpava para um outro espaço-tempo, rumo Cordilheira dos Andes. VARRE VARRE VASSOURINHA. Uma arrogância dura três anos. Um cão sobrevive a três arrogâncias. Um cavalo sobrevive a três cães. Uma pessoa sobrevive a três cavalos. Um tubarão sobrevive a três pessoas. Um ganso selvagem sobrevive a três tubarões. Um corvo sobrevive a três gansos selvagens. Um cervo sobrevive a três corvos. Uma pulga sobrevive a três cervos. Uma Fênix sobrevive a três pulgas. FILOSOFIA DA MONTANHA EM PÉ. O tempo é o passado somado ao presente, acrescido de um futuro apenas imaginado. O tempo para Fazioli não passava de jeito nenhum. De manhã à tarde o dia era sempre o mesmo. Até o ponto da exaustão. Quando um aldeão da fazenda de criação de chinchila que Fazioli comprou no norte da Argentina—sim, porque ele jamais atravessaria os Andes—esse aldeão lhe chamou atenção para uma questão crucial: uma montanha nasce de pé ou deitada? Parece incrível! Isso deixou Fazioli tão encucado que ele resolveu abandonar a vida campesina na Argentina—ao retirar sua velha kombi do galpão de feno—e voltar para o Brasil: “afinal, nasce ou não nasce em pé uma montanha?”. PRECISA-SE DE ALGUÉM. Fazioli colocou esse anúncio no vidro traseiro de sua kombi. Embora não chamasse a atenção desse alguém que tanto procurava, nunca desanimou....


Beto Palaio

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013



ADELÍCIA E O BEZERRO DE DUAS CABEÇAS


Adelícia. Uma das oito meninas. Ela teve uma vertigem. Segurou forte na mão de Linderléia. Em direção ao que surge. Uma conta de sinas ajuntadas. Fortunas catarinas, joaninas, luzianinas, dinheiro miúdo no pote, ou o pote vazio, ou pote nenhum. De barro. Quando se está descendo à cova. Um espaço por demais conhecido. Morta. Na idéia que tinha do pátio. Adelícia não faltava em nenhuma aula. Ia à pé. Naquele dia. Depois se detém. Diante da filmagem de um sol causticante. Queimando o filme da terra árida. Nenhuma cerca. Nenhuma jaula. Nenhuma porteira. Desde a estação do trem na cidadezinha, até a casa da avó Cândida. Essa sua avó que ficara doente. Coisa grave, claro. Por isto Adelícia deu-se ao trabalho. De tomar um lugar no trem que vinha para o sertão. Nem tanto como esposa. Mãe de filhos. Mas vindo como neta de Dona Cândida. Foi naquele lugar pobre. Numa nona sinfonia improvável. Som nenhum. Desafio para um músico surdo. A natureza silente do lugar. Só os grilos. Mas estes tinham um canto certo. O cricrilar monótono das noites quentes. Nesta visita Adelícia veio para velar por sua avó doente. Quando aproveitou para rever sua irmã Linderléia. Ela, Adelícia, já com quarenta e três anos de idade. Nunca mais as vira. Fazia já trinta anos que Adelícia havia ido embora. Agora como os pés se afundando na areia avermelhada. Chegando à velha casa de fazenda. Onde tudo retorna à infância. Aquele lugar. Enquanto isto. Ouvira vozes. Papagaios a matraquear, é o que parecia. A fala de quatro velhos sem pressa. Vinham pelo caminho do sítio. Cada um montado em sua própria bicicleta. Embora pedalassem sem ânimo. Portanto. Ao vê-la. Disseram quase ao mesmo tempo de onde vinham. E também para onde iam. Falaram que Dona Cândida pedira para eles cuidarem da papelada do enterro lá dela mesma. Por isso iam. Em direção ao tabelião que cuida do cemitério da comunidade. E o sol da manhã já ia alto. E disseram outros roteiros, determinados. Principalmente disseram à Adelícia que estiveram falando em separado, cada um dos velhos, com a avó Dona Cândida. “Ela é muito esperta. Passou o mesmo recado para cada um de nós. Assim não tem chance de haver erro na tarefa”. Eles pararam quando viram Adelícia vindo à pé. Sorriram para ela. Ponderaram sobre o estado de saúde de Dona Cândida. Mas não disseram mais nada sobre a tarefa de que estavam incumbidos. No entanto davam vaza a outras prosas. “Vossa avó vai escapar dessa. Está para nascer a doença que vai matar Dona Cândida”, isto disse um dos velhos, com um toco de cigarro nos lábios, quase em risco de se queimar. Adelícia ouve esta última frase e quer correr mais rápido ainda para ver a avó. Ela tem receio de que os homens lhe escondam algo. Reflete que o caso de saúde de sua avó Cândida talvez não seja algo passageiro. As muitas cartas que trocara com ela e com sua irmã Linderléia. Todos os roteiros do sítio eram repassados em letras guardadas. Mais de uma centena de cartas que ela guardava. Nessas letras escritas à caneta Bic. São madrugadas dentro dessa outra menina que morava dentro dela. O fruto que nunca amadurece é isto que se guarda para sempre com o gosto do sumo de cantos de galos, perfume da mata, cheiro de terra revolvida, murmurar de riachos, capins repletos de orvalho, abraço de tias cheirando sabonetes, presença de homens suados no alpendre, tudo ela lembra, entre tantos, a partir disto, em fim, esses e tantos outros cheiros identificáveis. Foi sua história pregressa, antes de ir para a cidade. Detalhes em desfile. A velha moringa de barro ao lado da imagem de São Francisco de Assis. O café de coador. Foi-se o tempo de guardar saudades. Agora Adelícia iria rever seu pedacinho de terra. Quando muito longe. Ainda morando no Rio de Janeiro. Seus próprios dois filhos na escola. O marido funcionário da Light. Sentada em seu quarto em Botafogo. Lembrava ali da cartomante que visitara uma semana antes. Quando aquela mulher recolhera os búzios que foram espalhados sobre um veludo surrado. “Qual saber! Tive muita cautela”. A mulher falando coisas pequenas. Injúrias, invejas, maledicências, motes, fingimentos e traições. Disse que seu marido cumpria a cama do bem bom com outra. Disse que seu futuro estaria perto. Disse que ela se tornaria uma ave de arribação. Disse que ela iria embora de vez. Disse que um dia ela teria duas cabeças. Mas qual o que? Como acreditar em disparates assim? Ela tão certinha em seu rondó. Tão mãe de família. Nem que acreditasse naquelas cascas de caramujo sendo traduzidas num propósito tão avassalador. Adelícia estava olhando fixamente a toalha de mesa xadrez. Não podia confiar que seu marido a traísse. Ele era tão bobão. Ela duvidava disto. Mas da viagem ela tinha certeza. Isto aconteceu para firmar compromisso. Pois duas semanas se passaram e chegou até ela uma carta suja de terra. Isto a trouxe para o sertão de Dona Cândida. Que agora a mirava por trás de uns óculos de miopia avançada. Sua avó tomou suas mãos e lhe segredou algo. Depois chegou a sua irmã Linderléia, uma meio-boba, que nunca saíra do sítio. Ela e a irmã se desdobravam pela avó. Dia a dia. A Dona Cândida ora confabulava com uma, a Linderléia. Ora confabulava com outra, a Adelícia. Passada uma semana, se tanto, e Dona Cândida morreu. Os povos dos gerais souberam e vieram todos. O cavalo de um visitante ficou amarrado no vão do cercado. Um pequeno ajuntamento cresceu no portão. Um distinto homem magro chorava. Uma mulher gorda lastimava. Um moço de alpargatas novas sorria seu dente de ouro. Um menino de tez morena brincava no quintal cheio de galinhas e pintos. Mas aquela casa ficou vazia no dia seguinte. Passou-se uma semana e nada aconteceu por ali. Passam seis meses e ainda nada havia acontecido. Passado um ano, entretanto, uma vaca parideira chorou muito na madrugada. Uns peões vieram assistir ao parto. Pela manhã, a novidade. Nascera ali um bezerro de duas cabeças. Todos gritaram de surpresa. Até o jornalzinho da cidade vizinha estampou lá: “Nasce um bezerro de duas cabeças no sítio de Dona Cândida”. Adelícia e Linderléia finalmente revelaram, uma para a outra, o segredo que Dona Cândida lhes confiara naqueles seus últimos dias: “O sitio será o arrimo de vocês duas. Estejam juntas como se fossem um bezerro de duas cabeças”. E assim foi. E assim ficaram.


Beto Palaio

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013




BANGU CONEXÃO ACAPULCO

Lábios que beijei. Mãos que afaguei. Numa noite de luar assim. Onde parecia tocar uma flauta indizível, marcando os passos daquela alma traída. O mar era de ressaca. Os vagalhões gostariam mesmo é de arrancar a amurada ao longo da praia. Os sentimentos de Vargas eram os mesmos. Pudesse se quisesse, quisesse se pudesse. Ele se jogaria ao meio daquele inferno aquático. “Morro por meu amor”, pensou ele se postando bem perto do arremesso último da arrebentação. Os respingos de água salgada agora lhe brindavam a roupa ensopada. O mar lambia já o calçadão sob seus pés. Para o horror geral da cidade. Porém, Vargas nem se importou quando a primeira onda avançou sobre a Avenida Atlântica. Tenteando. Ele desequilibrou-se e caiu. Em seguida o mar o puxou para si. O ruído dos estrondos era infernal. O certo é que Vargas se afogaria em meio à impossibilidade de sair, por si só, daquela sopa oceânica. Socorro para ele não haveria. Sua mulher deixara um bilhete colado com durex no espelho da penteadeira e um beijo de batom ao lado do bilhete. Ela estava indo embora para morar com outro homem. O bilhete era sucinto. Vargas não tinha mais o que fazer para salvar seu casamento. No meio-fio do calçadão juntou gente para ver o afogamento de Vargas em sua luta de morte contra as temíveis ondas. Ninguém esperava que Vargas sobrevivesse em meio a milhares de baixas que se tem notícia em situações semelhantes. Vargas, no entanto, milagrosamente, fora resgatado. Apenas 48 horas depois de dar entrada no hospital de base do exército—pois Vargas era tenente de comando no Rio de Janeiro—uma equipe cirúrgica de emergência ainda estava velando por ele ao lado da mesa de operação. Ocorre que, por ser Carnaval, o quadro médico oficial estava de licença e Vargas fora atendido por longínquos aspirantes ao cargo: soldados rasos que se desdobravam por ali como aplicados enfermeiros, mas que possuíam larga experiência em acompanhar o capitão-médico, ausente do plantão naquele momento. O pessoal da equipe de emergência usava roupas especiais e portavam máscaras cirúrgicas. A sala de cirurgia era básica, mas contava com um bom equipamento e boa iluminação. Contudo a esterilização não era perfeita, e o anestesista tinha menos experiência do que a exigida nos casos em que Vargas se encontrava. Eis que, novamente, Vargas enfrentava a morte, desta vez sendo assistido por enfermeiros capazes, mas que não tinham em conta o adverso de situações como aquela. Crê-se desde Diderot que a história da raça humana é uma história de erros. Alguns estudiosos acreditam que o fato de cometermos erros é o que decididamente nos torna humanos. Os erros já tiveram seu momento dúbio na sociedade, quando antigos filósofos os tinham como testemunho de imperfeições na alma humana. No entanto, para Vargas, um simples erro bastaria para que ele perdesse sua vida. Eis que Vargas acorda depois de uma semana e tem ao seu lado uma mulher lindíssima que aos poucos, na medida em que acordava, Vargas notou ser a sua própria mulher. Houve um tempo na vida do casal em que Vargas considerava a mulher, no geral, como sendo um ser inferior. Ele fora criado em Bangu por uma tia preconceituosa que vira seu namoro com Violante como algo inadmissível: “como é que um imbecil como você não consegue namorar uma moça de respeito... Uma moça de família?”. Violante de Sá, no entanto, apesar de seu passado nebuloso, jamais vira a companhia de homens libertinos como algo pecaminoso, e era bastante sonhadora e imaginativa ao preterir seu possível casamento com Vargas como uma forma de se estabelecer na sociedade carioca, onde passariam a morar, inclusive, no bairro nobre da Tijuca. Para sermos precisos a situação social de Violante de Sá não tinha precedentes seguros nem na Bíblia onde se afirma que Deus criou o homem à sua imagem e semelhança e nele moldou seu espírito, enquanto a mulher não receberia alma por ter sido apenas concebida de uma das costelas de Adão, portanto sendo-lhe submissa hierarquicamente. No entanto foi de forma submissa que Vargas acordou de seu estado crítico de saúde pós-operatório. “Se sair dessa, Violante, te levo para passear no México... Levo-te para a terra do bolero e do maxixe”. Violante sorria enquanto fumava um cigarro, apesar da proibição de se fumar dentro daquele quarto hospitalar. Ocorre que Vargas nem ligou para a fumaça de cigarro ser jogada por ela, de propósito, no seu rosto de convalescente: “ah... Que saudade do cheiro de seu cigarro!”. Violante não perdeu as medidas: “só do cheiro do cigarro?... Aposto que você tem saudade de outras coisas também!”. Claro que Vargas tinha a sua mulher em alta conta. Inclusive, como um derradeiro suicida, ele sentira falta dela. Agora, para retornar à paz do seu casamento, ele enfrentaria tudo para sua efetiva recuperação pós-operatória: “Violante, meu bem, se você voltar tudo vai ser diferente”. Claro que Violante voltou para Vargas, nem tanto pelo motivo de que o homem que escolhera para fugir daquele casamento era apenas um doidivanas que cheirava cocaína e lhe dava uma surra toda vez que faziam sexo. Nem tanto por isso. Acontece que Violante de Sá voltou para Vargas apenas para provar a si própria que era uma mulher de fibra e de valor: “vamos sim, para o México... Estou doida para tomar tequila diretamente da garrafa... Vi um filme com o Márlon Brando, em Acapulco, tomando tequila diretamente da garrafa... Nós vamos para Acapulco, não é meu amorzinho?”...


Beto Palaio

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013



RIOBALDO E JOÃOZÃO.

Minha fala num documentário?... Heim? – O que é isto? – O senhor proseou em filmar por aqui? – Nem soubesse que esse seu jipe da TV surgiria desde o Rio de Janeiro? Lonjuras de além-montanhas?... Ou, também, quem for, viesse pelas cabeceiras... Não é mesmo?... Sei sim... Acertou de adivinhar... São esses mesmos... Meninos campeiros do por aqui pertinho. Vieram emprestar minhas armas, cedi. Não gloso com caça miúda. O senhor pergunte aos moradores. Sem falso receio. Sei que desfalam do inteirado buritizal, do meu encontro primeiro com a guerra... Que lá estiverem, isso apreceio, bala no besunto alheio é afeição... Viu, não viu?... Com essa gente porfalando de meus passados erráticos... Porque é que o senhor ri certas risadas?... Olhe: quando é dito em feitio de sertão, isso não assusta? Ah, o que é que existe de ter de maior lá? Lugar sertão está em volta. Viramundos. Esses gerais são sem estatura certa. Enfim, cada um se entenda é com o Galício e o Caramujo, dois canoeiros do agora. Estes atravessam até um mar engomado pelas cabeceiras! Desses que engruma e pincha o barco até o pra debaixo do repuxo... Em certos trechos do Das Velhas... Ruim de maleitoso, esse um de rio, abrocado, é em escorrega, ao pedregoso, sem final... Ou, também, quem for. Não tenho abusões. O senhor é quem se ri com risadas... Olhe: quando é que o senhor estude: agora mesmo, nestes dias de uns vinte minutos bastava... Porque o Galício sozinho abraçava o Rio do Chico pelas nascentes. Será já no canto do galo, ao latir da cadela sertaneja, chances, instantaneamente. O senhor tolere, ou não. Tem fazendas e fazendões, pano pra manga de uma semana esticada. Isso bastava... Porque se costeava um rio de corpo vivo – esse um que deu afogamento a muitos mortos... O senhor tolere, isto é que é, de onde se executa; razão de rezas e, fim, com paz se convive. Sentença dum Aristides Matador – dizem só: o aqui vir – Nonada! – O senhor se instrua: agora mesmo, nestes dias de vargens em rezas, tudo taramelado e cuspido, noites na capela, mas com o capeta em contorno... Esses gerais são sem tamanho. Enfim, cada um tem seu choramingar, atrás da vela, ceras guardadas, ou em mata, madeiras de bom render, as vazantes, cheiro podre de cachorro morto por onça – deu num abelheiro – Dessas umas ferroadeiras. Eis o Jarmino quem deu tiro no fofo de papelão do ninho delas. Nem ficou um zé que fosse por perto. Quando zuniu. Elas gritam por vingança crua. Assim as tais, se não matam um homem, atacam nos cavalos e miudeza de passarinho, mesmo os da mata. Uma crueza – o que se sabe releve – Uns costumes que se enraíza de fora, teria aparecido, e uma pergunta, em mata lisa, ou nas de chanfro, cruz-cruzadas, bem que me disseram; eu não quis foi avistar: uma espiriteira de aparecer visagem de mortos findos e antigos. Lá no longe. Nas folhagens do amanhecer. Um escuro não sendo. O Urucuia vem desde os rumos de oestes chuvosos. Mas, hoje, que o respeito é de banda, não deixando, quando ele quer consentir, o tal moço, se evita, de se redobrar nos Santos-Evangelhos. Em ocasião, conversei com uma pergunta atrás da outra, em garganta fina, o farrear de cigarro a cigarro, gravetos de passagem, ao João Guimarães Rosa – Esse foi quem mais me perguntaria, coisas miúdas, do Grande Sertão, ao justo colocado, no embornal, lá dele... Eita homem mais pererê!... Ele, Dotô Joãozão, era um padre para muitas missas? Veredas? Para aqui vir? – E não foi?


Beto Palaio


(Escrito à maneira de JGR, em homenagem ao Pelada Poética)


Arte: Gravura de Poty

domingo, 3 de fevereiro de 2013



AMNÉSIA


Amnésia. Uma maneira inusitada para se iniciar um conto. Será que Fiammeta sofre mesmo de amnésia? Ficamos boquiabertos. Sem sermão nenhum. Entretanto ela está indo para o quintal dos fundos para poder acender um cigarro escondido de todos. Amnésia. Apenas isso. Socialmente, ela é uma mistura estranha de graciosidade e paranóia. Por um momento Fiammeta sente-se desprotegida. Acha que um de seus olhos é maior que o outro. O resultado disto é que ela, tentando resolver o mistério, passa horas diante do espelho do banheiro. Amnésia. Ela não se acha uma pessoa fora do normal. Como qualquer ser humano que vive a cercar-se de amigos e parentes, às vezes ela sente-se mal interpretada, frustrada e impotente. Ontem mesmo—será que foi ontem?—ela recebeu a visita inesperada de uma tia. Sem coca-cola em casa, Fiammeta abriu a garrafa de um raro uísque escocês que o marido tinha como relíquia intocável. Amnésia. Em momentos assim ela dá razão à frase “melhor um amigo na mão que dez voando”. Isto se traduz da maneira mais prática de que Fiammeta é uma excelente contadora de estórias e quem estiver à mão será premiado com um falatório sem limites. Amnésia. Ela é assim mesmo. Sua mãe já desistiu de lhe chamar atenção. Seu irmão Sidney também não toca em determinados assuntos com ela. Mas as amigas que ela fica sem ver por mais de uma semana, em geral são brindadas com um espetacular resumo de fatos que por vezes parece ser interminável. Amnésia. Pode ser esnobismo de uma alpinista social. Então, novamente, sem qualquer aviso, ela está diminuindo alguém com farpas devastadoras, apenas por essa pessoa ser uma apreciadora indiferente de sua presença numa eventual roda social. Amnésia. “Qualquer um fica esperto e, depois de algum tempo, aprende a salvar-se." Ela disse isto em francês numa ruidosa tarde de pôquer na casa do embaixador da Martinica. Fiammeta fala francês fluentemente e chegou a ter em seu guarda-roupa um casaco especialmente concebido para ela por Givenchy. Amnésia. No dia do batizado de sua sobrinha houve um almoço informal onde um dos convidados estava usando uma gravata vermelha. Fiammeta viu naquilo um símbolo fálico e falou para seu irmão que aquele homem estava lhe incomodando por ter um falo gigante pendurado no pescoço. Amnésia. Seu psicanalista apareceu na revista Caras. Ela nem sabia que ele tinha cinqüenta e oito anos de idade. Isto a revista descobriu e publicou. Na sua próxima seção de “encolhimento” ela vai chamar o seu analista de “meu velho”, só para ver como ele se sai desta. Amnésia. No divã, bem no inicio de sua análise, ela recordou o namoro que tivera com um moço que servia o exército. Foi um com quem ela se escondeu no laranjal que havia nos fundos do quintal de sua avó. Depois que fizeram amor eles chuparam laranjas e ela, totalmente nua, colocou em sua cabeça o quepe de soldado de seu namorado, enquanto chupava uma laranja ruidosamente. Amnésia. Ela achava que tinha total desdém pela morte, até que se viu em apuros durante um vôo para Nova Yorque, quando aquele avião passou por momentos de terríveis turbulências. Neste dia ela notou que a moça ao seu lado rezava com um terço católico entre as mãos. Ela quis também rezar no mesmo terço, junto com a moça. E assim fizeram. Quando o avião pousou, ela fez questão de ficar com o cartão de visitas daquela moça. Só que nunca teve coragem de ligar para ela e o cartão acabou sendo jogado no lixo. Amnésia. Depois do apuro que passou no avião, Fiammeta apregoa que não tem medo de mais nada. Ela vive desejando que lhe aconteça um terremoto ou um furacão, mas essas coisas não acontecem apenas quando as desejamos. Amnésia. Ela ouve tocar um saxofone ao longe. Lembra-se de um momento especial de sua infância, mas não sabe precisar o motivo. Assim ela vai até a janela e descobre que um belo dia de sol está valorizando ainda mais o roseiral de seu jardim. Fiammeta sai para fora e toma um susto. Ela nem quintal tem, pois mora num apartamento no décimo andar. Então ela aperta o botão do elevador, pois quer ir para a rua saber de onde vem a música de saxofone que ouve sem parar. Amnésia. Fiammeta andou vários quarteirões em Copacabana. Ela não sabe onde está. Resolve perguntar para um jovem que está indo para a praia carregando uma prancha de surfe. “Sua casa fica lá”, diz o rapaz apontando para o mar. Então Fiammeta vai indo em direção ao mar. Ali o barulho da arrebentação se apresenta em timbres de um saxofone que toca um samba-sincopado. Ela entra no mar e dança ao mais belo som que jamais ouvira. Depois ela dorme. Dorme profundamente. Amnésia.

Beto Palaio

Arte: Instalação de Daniel Spoerri.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013


MOISÉS E SARÇA ARDENTE

Há na crença mundial uma certeza de que tudo dará certo, desde que os astros se alinhem com um só propósito, que é o de nos servir. Em tempos ditos históricos, como uma pedra rolante, surgiria pelas terras da Mesopotâmia um andarilho, um homem deveras pobre e magro, na verdade um faquir oriundo dos altiplanos da Índia, diga-se apropriadamente, das encostas acidentadas do Tibet. Quem observava este homem pelas ruas de Al-Quedar não conseguia atinar os motivos dele aportar em terras desérticas e deveras distantes do seu verdadeiro lar. Ocorre que este santo homem procurava pelos indícios de Moisés e a Sarça Ardente, um mito que ele descobriu lendo escrituras tibetanas muito mais antigas do que a Bíblia. Neste misterioso livro, escrito em sânscrito, o yogui atingiu a sabedoria da busca quando leu este trecho: “os bosques são sombrios e falam, os campos são abertos e ouvem”. Em conseqüência disto, ao acampar a céu aberto, entre os rios Tigre e Eufrates, o faquir observou um fenômeno maravilhoso enquanto o sol se punha em direção ao Eufrates. Naquele exato momento ele compreendeu que a visão de Moisés abrangia a paisagem inteira de um país, sendo que, para isto, um formidável e portentoso rio se apresentaria inteiramente imerso em chamas. Eis enfim revelado o enigma dos enigmas. Quando várias interpretações adiante. O mito rende-se à beleza das matas tropicais no Brasil. Justo nesta ocasião. Uma réstia de luz vazava pelas árvores. Ali Sarça Ardente e Moisés, dois jovens enamorados, haviam andado um bom trecho de mata nativa. Vinham eles inaugurando sendas no verdal, ouvindo vozes ancestrais, saltando córregos, evitando touceiras fechadas de aroeiras. Ao derredor. Matos algodoados em cerrações a assoalhar o palco do balé perpétuo de tronco, galho, folha e flor. Cintilam neste dossel bandeiras azuis metalizadas das borboletas sertanejas. Aparteando o abençôo do coro de sagüis gritalhões, eis o pisca-pisca de lusco-fuscos ocasionais nas retumbâncias da mata cerrada. Então o aprisco de um campo repleto de  banana-da-terra, bem-te-vi, dente-de-leão, castanha-do-pará, brinco-de-princesa, copo-de-leite, maria-sem-vergonha, canário-de-topete, erva-de-passarinho, seriema-da-mata, espada-de-são-jorge, joão-de-barro e urubu-rei. Num repente Sarça Ardente quer descansar e se acomoda, feminina ao extremo, às franjas de um belo tronco de cedro-rosa. Neste momento a moça abre seu decote colocando à mostra seus belíssimos seios, fartos de alvura e convites. “Trata-me com carinho, fala-me com amabilidade”, ela pediu para Moisés coisas neste tom. Ele entretanto nem prestou muita atenção ao pedido. Naquele momento sua respiração ficou ofegante, principalmente quando sentiu, ao abraçar-se com Sarça, o roçar de seus belos seios nus contra seu peito. ‘Assim não, Moisés, calma, tá?”, ela lhe suplicou. Mas Moisés estava cego de desejo e avançou com as mãos, levantando o vestido de Sarça Ardente. Ele acaricia suas pernas enquanto procura sua boca para um beijo. Sarça no entanto se desvencilhou dele e desferiu-lhe um tapa no rosto: “seu idiota, você estragou tudo!”. No caminho de volta eles trilharam um longo trecho de mata sem conversarem. Súbito, Moisés passa por uma clareira aberta na mata e ao olhar para trás vislumbra todo corpo de Sarça Ardente sendo atingido pela luz do sol. Ele se maravilha com o que pensou ser um anjo iluminado pelo Altíssimo. Moisés sentiu-se um escolhido. Quis amar Sarça ali mesmo, mais uma vez. Desta vez ela o permitiu. Luz em luz, o amor do casal se fez. Sem o lúbrico incesto da carne a participar. Apenas o amor, esse faroleiro, prestava-se à guiá-los pelos caminhos corretos do agir. “Vamos, Sarça, vista-se... Já está tarde, precisamos ir...”. Os anos na moviola do tempo passam tão rápido quanto borbotões de cachoeira. Depois de aposentar-se Moisés lembraria as minúcias de quando se aventurava com Sarça por aquelas matas nativas e praias desertas. Ele ainda era um adolescente enquanto Sarça tinha uns cinco anos à mais que ele. Especificamente para o agora solitário Moisés, neste momento de lembrar, no dia, mês e ano que Sarça Ardente e ele começaram timidamente à namorar. Parece até que isso aconteceu apenas à uma semana atrás. Sarça veio morar na rua de trás da casa de veraneio dos pais de Moisés em Joázinho. Logo eles formaram um casal muito lindo. Namoravam certinho. Eram confidentes. Não desgrudavam um do outro. “Quando a luz se apresenta, o ninho se constrói”, era uma frase que Sarça ouvia de sua mãe, querendo dizer que “quem casa quer casa”. Ela e Moisés construíram o justo princípio desse ninho de amor, feito e refeito em luz, no dia em que passearam juntos, pela primeira vez, por dentro da mata virgem. Mas isso se contará bem ao meio do texto deste conto. Se julgarem apropriado, leiam tudo de novo...

Beto Palaio