domingo, 6 de março de 2016

Resultado de imagem para dead leaves Menashe Kadishman  jewish museum

Uma vontade não sei de que...

Saudade não sei de quem...

Um desassossego na alma...

Um desejo que nada quer...

Uma espécie de veneno doce,

Que faz morrer... sem matar!

Patrícia Oliveira


Arte: "Folhas mortas", escultura de Menashe Kadishman

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016


Há uma hora certa, 
no meio da noite, uma hora morta, 
em que a água dorme. 

Todas as águas dormem: 
no rio, na lagoa, 
no açude, no brejão, nos olhos d'água, 
nos grotões fundos 
E quem ficar acordado, 
na barranca, a noite inteira, 
há de ouvir a cachoeira 
parar a queda e o choro, 
que a água foi dormir... 

Águas claras, barrentas, sonolentas, 
todas vão cochilar. 
Dormem gotas, caudais, seivas das plantas, 
fios brancos, torrentes. 

O orvalho sonha 
nas placas da folhagem 
e adormece. 
Até a água fervida, 
nos copos de cabeceira dos agonizantes... 

Mas nem todas dormem, nessa hora 
de torpor líquido e inocente. 
Muitos hão de estar vigiando, 
e chorando, a noite toda, 
porque a água dos olhos 
nunca tem sono...

JOÃO GUIMARÃES ROSA

Pintura: John Singer Sargent

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016



There is a story that begins in a doorway, a moment before a door opens, a moment before light enters through the crack. The story hesitates. How does a photograph shape our lives? This photograph, like all photographs, is on the move and can only appear after seeing. Too often, we devote our lives to not seeing what we saw.

Há uma história que começa no batente da porta, um momento antes da porta se abrir, um momento antes da luz entrar pela fresta. A história propriamente hesita. Como é que uma fotografia pode moldar nossas vidas? Esta fotografia, como todas as fotografias, existe em movimento e só pode reafirmar-se depois de assimilada. Em geral dedicamos nossas vidas à não ver o que vemos.

DOUG RICE

Photos and text: Doug Rice
Translation: Beto Palaio

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016


X. Eles perguntam qual é o propósito da arte? Dizem que existem muitos artistas e um só propósito, pode um artista atingir a meta e os outros ficarem chupando o dedo? Um anúncio da Arcata Button diz:  Experimente sem limites e mantenha-se humilde.  “Escreva para o Comitê Central dos Estudos Democráticos; eles devem saber tudo a respeito de serviços globais”. Eu fiz isto e eles responderam que nada sabiam do assunto, então me sugeriram escrever para o Departamento de Estado.

JOHN CAGE (do livro De Segunda a Um Ano)

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016


MEDIOCRIDADE

Caminha louca procurando vítimas, milhares de seguidores.
Fanatismo,
Seitas,
Promiscuidade,
Droga,
Corroí todas as classes sociais,
Mal universal,
Efeito estufa,
Atormenta almas,
Vive de mentiras,
Alimenta egos,
Demônio de uma civilização,
Provoca o suicídio,
Enfatiza o consumismo,
Besta fera, deixa tudo como está!
Mata animais indefesos em nome da tradição
Produz serial Killers
Algoz da juventude,
Produz massa de irracionais,
Pensamentos iguais,
Robôs uniformizados,
Moda decrépita,
Alicia crianças,
Fomenta massas de desvalidos,
Aglutina mentes,
Traz para fora o egoísmo,
Vive da inveja,
Produz miséria,
Isola os diferentes,
Impede pensamentos contrários,
Mata, rouba,
Produz psicopatas,
Caminha com ouro, mas descontentes,
Insatisfação,
Vazio,
Medo de perder a vez,
Sepulcro,
Genocídio,
Assassina as artes,
Riem um dos outros,
Das próprias misérias,
Aplaude os corruptos,
Amam seus algozes,
Recusam idéias novas,
Preferem sempre as portas abertas,
Nunca abrem as fechadas,
Seguem sempre a multidão,
nunca vão pelas margens,
Sim, Sim, Não, Não
Esquecem Gandhi, Sócrates, Nietzsche, Machado, Pessoa, Freud, Mielenhausen, Plínio Marcos, Lorca, Buda….
Lembram -se carros, roupas, relógios, propriedades, superficialidade, jóias
Não, não mexam em nada!
Deixem tudo como está,
Para não perder o título de homem de bem.
Meu asco mais profundo a todos os medíocres.


Texto de CLAUDIA CANTO

domingo, 17 de janeiro de 2016


SUMMER

Last summer, two discrete young snakes left their skin
on my small porch, two mornings in a row. Being

postmodern now, I pretended as if I did not see
them, nor understand what I knew to be circling

inside me. Instead, every hour I told my son
to stop with his incessant back-chat. I peeled

a banana. And cursed God—His arrogance,
His gall—to still expect our devotion

after creating love. And mosquitoes. I showed
my son the papery dead skins so he could

know, too, what it feels like when something shows up
at your door—twice—telling you what you already know.

Robin Coste Lewis


VERÃO

No ultimo verão, duas cobras deixaram suas peles
na minha varanda, por duas manhãs seguidas. Sendo

agora pós-moderna, eu fingi que nem as tinha visto,
nem quis entender o que sabia estar revolvendo

por dentro. Contudo, toda hora dizia ao meu filho
para que parasse de tagarelar. Enquanto descascava

uma banana. E amaldiçoava Deus—Sua arrogância,
Sua fealdade—por ainda esperar a nossa devoção

após ter criado o amor. E os mosquitos. Eu mostrei
ao meu filho as peles tal papel seco para que entendesse

 como uma coisa, em conluio, se apresenta à sua porta
ao insistir—duplamente—em exibir o que já sabíamos .

Robin Coste Lewis


Tradução / translation: Beto Palaio
Ilustração: deusa minoica das cobras / Minoan goddess of the snakes

terça-feira, 15 de dezembro de 2015



A DESCOBERTA

Seguimos nosso caminho por este mar de longo
Até a oitava da Páscoa
Topamos aves
E houvemos vista de terra
os selvagens
Mostraram-lhes uma galinha
Quase haviam medo dela
E não queriam por a mão
E depois a tomaram como espantados
primeiro chá
Depois de dançarem
Diogo Dias
Fez o salto real
as meninas da gare
Eram três ou quatro moças bem moças e bem gentis
Com cabelos mui pretos pelas espáduas
E suas vergonhas tão altas e tão saradinhas
Que de nós as muito bem olharmos
Não tínhamos nenhuma vergonha.

OSWALD DE ANDRADE

Pintura: João Calixto