quinta-feira, 16 de abril de 2015

 

Vivemos em plena cultura da aparência: o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus.
Eduardo Galeano

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

O LIVRO DO DESASSOSSEGO


Pasmo sempre quando acabo qualquer coisa. Pasmo e desolo-me. O meu instinto de perfeição deveria inibir-me de acabar; deveria inibir-me até de dar começo. Mas distraio-me e faço. O que consigo é um produto, em mim, não de uma aplicação de vontade, mas de uma cedência dela. Começo porque não tenho força para pensar; acabo porque não tenho alma para suspender. Este livro é a minha cobardia.
A razão por que tantas vezes interrompo um pensamento com um trecho de paisagem, que de algum modo se integra no esquema, real ou suposto, das minhas impressões, é que essa paisagem é uma porta por onde fujo ao conhecimento da minha impotência criadora. Tenho a necessidade, em meio das conversas comigo que formam as palavras deste livro, de falar de repente com outra pessoa, e dirijo-me à luz que paira, como agora, sobre os telhados das casas, que parecem molhados de tê-la de lado; ao agitar brando das árvores altas na encosta citadina, que parecem perto, numa possibilidade de desabamento mudo; aos cartazes sobrepostos das casas ingremadas, com janelas por letras onde o sol morto doira goma húmida.
Por que escrevo, se não escrevo melhor? Mas que seria de mim se não escrevesse o que consigo escrever, por inferior a mim mesmo que nisso seja? Sou um plebeu da aspiração, porque tento realizar; não ouso o silêncio como quem receia um quarto escuro. Sou como os que prezam a medalha mais que o esforço, e gozam a glória na peliça.
Para mim, escrever é desprezar-me; mas não posso deixar de escrever. Escrever é como a droga que repugno e tomo, o vício que desprezo e em que vivo. Há venenos necessários, e há-os subtilíssimos, compostos de ingredientes da alma, ervas colhidas nos recantos das ruínas dos sonhos, papoilas negras achadas ao pé das sepulturas [...], folhas longas de árvores obscenas que agitam os ramos nas margens ouvidas dos rios infernais da alma.
Escrever, sim, é perder-me, mas todos se perdem, porque tudo é perda. Porém eu perco-me sem alegria, não como o rio na foz para que nasceu incógnito, mas como o lago feito na praia pela maré alta, e cuja água sumida nunca mais regressa ao mar.

Fernando Pessoa

sábado, 7 de fevereiro de 2015


CARTILHA

A

Não quero meu poema apenas pedra
nem seu avesso explicado
nas mesas de operação.

E

Não quero os sóis que praticam
as mil fotos do objeto, a noite sempre
nascendo da noite em revelação.
Preciso
da palavra que me vista não
da memória do susto
mas da véspera do trapezista.

I

A sede neste deserto
não me conduz ao mirante, ou antes:
olho selvagem.
A sede ultrapassa a sede onde
renasce o objeto, sua
resposta miragem.

O

Há seres insuspeitados no gênio
deste cavalo.
A lucidez desta pedra oculta cada
manhã
seu cadáver delicado, este mistério
que pulsa nos olhos da borboleta.

U

Quero meu poema apenas pedra:
ou seu fantasma emergindo
por onde dentros e foras.

CACASO

domingo, 17 de agosto de 2014


NÃO APAGUE EM TI A MINHA EXISTÊNCIA

O tempo passa sem resistência. Ao amadurecer do ir. Cascas de nozes a fugir na flutuação. A sombra é placenta do fosforescer. O sol lentamente desaparece em meio aos lençóis coloridos do ocaso. Em tudo uma disfarçada pressa. Na copa das árvores há o gemido das espumas do mar, na pedra o respirar do milho nascido. A pimenta é carvão e arde. O homem é solidão e arte. Sua mão acena enquanto fugimos do tráfego de centenas de carros que nos desafiam. Peixes subindo a cachoeira, com pressa de se extinguirem no parto para renascerem nos ovos.

Chega aqui o primeiro salmão. Vem desde o mar. Ele é frio em sua fuga de pérolas esparramadas. Tão convidativos são os seixos da praia da desova. Friagem que afugenta uma centena de milhas de revoadas de pássaros para outros refúgios. Um canavial de gramíneas cerca o rio do viver salmão. Um giz passa e risca o céu quando escreve o voo de uma abelha que não pousa na flor, apenas voa de volta para a colméia. O salmão espera. Sabe ele limpo de outros salmões que virão. A água nasceu antes do peixe. Ou o peixe nasceu antes da água?

Inebriante. Um pouco elétrico. Outro tanto de embalar. Na luz de aluar solstícios. Revolução não é retaliação, ela é um pouco tesoura, sim, e um pouco cola de benzina. O cio da água gruda na pele do salmão. Todas as estadias são curtas. O aço assado derrete e finda líquido, plagiando águas. Areias. Desenhos de ondas no oculto de reflexos enferrujados. Contra a maré. O rio corre carnes de morder salmões e o braço de mar empresta pálido chupão de vida fruto agasalho da semente ainda por nascer dentro de outro salmão porvindouro.

Você acorda em mim no tapete da sala. Suponho-me peixe em seu corpo de mar. Ao acomodar acomodar-se busca trazer trazer-me para perto de ti assim amo amo-te enquanto beija beija-me. Há uma sílaba molhada dentro do vocabulário que se recusa a nascer. Papa ceia pernas bronzeadas estrela do norte supérfluo querer desistir. Nascer e morrer é lei universal. O tempo em dois dias murcha a rosa. Admite-se vastidões que suplantam o ir e vir. Deito-te deito-me deitamos enfim. O mundo é fatalidade em si mesmo. Ou não vimos ainda. Amor por vir.



Beto Palaio

Arte: Winslow Homer 

sábado, 16 de agosto de 2014



COMO DIZER-TE ADEUS
Sob nenhum pretexto
Eu não me vejo
entre reflexos,
infelizmente
é preciso que você me explique,
um pouco melhor
como te dizer adeus.
Meu coração de sílex
rapidamente pega fogo
teu coração de Pyrex
resiste ao fogo.
Estou bastante perplexa,
não quero
decidir-me pelo adeus.
Eu bem sei que um ex-amor pode dar sorte, ou
não dar
mas por mim uma elucidação seria melhor.
Sob nenhum pretexto
eu não quero
superexpor meus olhos a você
atrás de um lenço de papel (*)
eu saberei melhor
como dizer-te adeus.
Música de Arnold Goland • Letra de Serge Gainsbourg • Canta François Hardy
(*) Lenço de papel: Kleenex

quinta-feira, 31 de julho de 2014


AS CONVERSAS

Esses que puxam conversa sobre se chove ou não chove - não poderão ir para o Céu! Lá faz sempre bom tempo...

Mario Quintana


Um procura um parteiro para os seus pensamentos, outro alguém a quem possa ajudar: é assim que nasce uma boa conversa.

Friedrich Nietzsche


Ouvir umas histórias. Contar algumas também. Botar a conversa em dia… Falar sobre nós um pouco, talvez. Contar umas estrelas. Fazer uns pedidos. Quem sabe realizar alguns meus. Rir um pouco. Sentir-se leve. Esquentar um pouco os pés frios… O coração vazio. Se não quer sentar e relembrar o passado. Matar essa saudade. E essa vontade. Quem sabe sentir alguma vontade. Não sei…

Caio Fernando de Abreu


Além da conversa das mulheres, são os sonhos que seguram o mundo na sua órbita. Mas são também os sonhos que lhe fazem uma coroa de luas, por isso o céu é o resplendor que há dentro da cabeça dos homens, se não é a cabeça dos homens o próprio e único céu.

José Saramago


Cinema é melhor pra saúde do que pipoca!
Conversa é melhor do que piada.
Exercício é melhor do que cirurgia.
Humor é melhor do que rancor.
Amigos são melhores do que gente influente.
Economia é melhor do que dívida.
Pergunta é melhor do que dúvida.
Sonhar é melhor do que NADA!

Luis Fernando Veríssimo



Arte: Robert de Niro Sr – A conversa - 1960

AMÃEM CÊVO LGOIU NMUA MÁ HROA!

Amãem você me lgoiu nmua má hroa. Msa já que lgoiu srugea a odna. É que esotu tdneo uma brignhiua ha ceiasra ndaa grvae.  Cdaa vez mias e mias a cdaa dia, poruqe sei que jntous sooms czaeaps de vcneer tdoas as baarirers, de vecenr as hoars com aegrlia e de vaor srboe as aass do tmepo, saugdno os bnos aers da exerpiênica que ele prcoooinrpa, e tranndoo-nos cdaa vez mias caonitnefs na edtdeniare dsete smetinento que nos une. Msemo tdneo a cezetra de que esse aomr é praa srmpee, adnia sim qrueo dezir-lhe que vlizroao cdaa mnutio que pasmosas jnutos, cmoo só tehno baos rorcdeações de toods os motoemns que já defmorutsas ao lnogo dtsee nssoo feilz rnlcnmaiaeoeto. O aomr se dgstesaa mas a vdia counitna frmie. Ahco que sou uma ctaha tmabém, no setindo que você folau, e eepsro. Tdoos os dais, me deuplsce, mas as vzees não thneo o que dezir. Tneho de ir ao scuapemrrdeo. diepos te lgio. Cadê a lsita meu bem?

Acarçú
Aadhccootoals
Adoçatnes 
Aorrz
Aiteze
Bocstoiis
Fiejão
Fahnria de mnocadia
Fhirana de rscoa
Fnrhaia de mhilo
Fniarha de trgio
Fuáb
alS
Céaf
Liete Csdaneodno
Crmee de lteie
Mnieasa
Óloe
Masinoee
Earttxo de totame
Mlhoo pntoro
Kehctup
Mhloo ignlês
Mtoasrda
Evras aormátcais
Temorpes
Mhloos de pintmea
Gnaeilats
Ltiee de ccoo
Ccoo rlaado
Essêncais aciftaiiris
Chás
Careel mtanial
Pão de froma
Baatta plhaa
Mraacrão
Mraacrão
Spoa
Mssaa
Quijeo raldao
Cldao de cnrae
Cadlo de ghliana
Oovs
Ftmenreo

Um hoemm e uma mehlur vveim uma isennta rleação de aomr, e dpoeis de aunlgs aons se saeparm, cdaa um vai em bcusa do própiro cimnaho, seam do riao de visão um do otruo. Que fim leovu aqulee smeentinto? O aomr reltnemae aabca? 


Boet  Paliao


(Resumo do embrulho verbal: a mãe ligou para uma conversinha com a filha, esta desabafou, falou mal do casamento e depois disse para ela que teria de ir ao supermercado. Logo desliga o fone e pede a lista de compras ao marido. No final, após as compras, surge um pensamento filosófico que demonstra que o casamento, apesar dos reveses, continuará firme e forte)

Misturação verbal: Beto Palaio
Ilustração: Joakim Drescher