sábado, 12 de agosto de 2017



Tea for Two

"Honey and lemon?",
she asked him,
even though she knew the answer.
It was the same answer every morning.
Yet, an unexpected silence
coaxed her to look up
from the tea she was pouring.
His chair sat empty.
And dusty.
She was reminded,
just like yesterday morning,
and the morning before that,
that she and his chair
had been left behind.
Two years ago.
Or was it three?
It seemed like just yesterday
when she heard him mumble,
"But I don't like tea".
Oh, dear, she thought.
She finished pouring the two cups.
Well, then, "Honey and lemon, it is". 

JANETTE PAPP


Chá para dois

"Mel e limão?"
Ela perguntou,
Mesmo que ela soubesse a resposta.
Que era a mesma todas as manhãs.
No entanto, um silêncio inesperado,
forçava que ela olhasse para longe
do chá que ela agora derramava.
A cadeira dele ficara vazia.
E empoeirada.
Ela foi lembrando,
tal como na manhã de ontem,
e também de anteontem,
que ela e aquela cadeira
foram deixadas para trás.
Dois anos passados.
Ou seriam três?
Parece que foi ontem
Quando ouviu dele um murmúrio,
"Mas eu não gosto de chá."
Ah, querido, ela pensou.
Assim termina de servir duas xícaras.
Bom, então te ofereço "Mel e limão". 

Poema de JANETTE PAPP

Pintura de MIKE SKIDMORE

sábado, 29 de julho de 2017

Imagem relacionada

Vício na fala 

Para dizerem milho dizem mio
Para melhor dizem mió
Para pior pió
Para telha dizem teia
Para telhado dizem teiado
E vão fazendo telhados.


Oswald de Andrade

quarta-feira, 3 de maio de 2017




TRECHO 88

"Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!... Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma... Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos. Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia..."

FERNANDO PESSOA


(Trecho 88 do LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Arte: Koen van den Broek

sábado, 29 de abril de 2017




SEM NEM SER ZEN

Volutas de incenso
Ecoa um koan
Ao sol do oriente

Nanquim cor da noite
Desliza o pincel
Pelo ideograma

Cintila um metal
Ao lume da lâmina
Sonha o samurai

TCHELLO D´BARROS


Arte: Instalação de Tchello d´Barros para os eventos da Galeria Transparente

terça-feira, 25 de abril de 2017


O AMOR

É o amor que me leva.
O amor Ágape.
É esta respiração espiritual
absoluta
que sopra a ansiedade de universo.
É esta onda de delírio calmo
que tudo capta
sem captar.
Que voa de ar em ar,
de azul em azul,
até jamais voltar.
E este ímpeto de me inventar
farta de encanto
nos hiatos da sina
de me sondar.

Solange Brito Silva


Pintura: Sérgio Lopez

sexta-feira, 21 de abril de 2017


Metrô Linha 743
Raul Seixas
  
Ele ia andando pela rua meio apressado
Ele sabia que tava sendo vigiado
Cheguei para ele e disse: Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!
Disse: O prato mais caro do melhor banquete é
O que se come cabeça de gente que pensa
E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam
Porque quem pensa, pensa melhor parado.
Desculpe minha pressa, fingindo atrasado
Trabalho em cartório mas sou escritor,
Perdi minha pena nem sei qual foi o mês
Metrô linha 743


O homem apressado me deixou e saiu voando
Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando
Três outros chegaram com pistolas na mão,
Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui...
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental
Que você anda por aí usando
E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando
Minha cabeça caída, solta no chão
Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez
Metrô linha 743

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha
E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete
Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete
Fui posto à mesa com mais dois
E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs
Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado
Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado:
Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?
Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais
Mas o negócio aqui tá muito bandeira
Tá bandeira demais meu Deus
Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

Escultura: Cabeça de musa - Constantin Brancusi - 1910