quarta-feira, 3 de maio de 2017




TRECHO 88

"Quando ponho de parte os meus artifícios e arrumo a um canto, com um cuidado cheio de carinho - com vontade de lhes dar beijos - os meus brinquedos, as palavras, as imagens, as frases - fico tão pequeno e inofensivo, tão só num quarto tão grande e tão triste, tão profundamente triste!... Afinal eu quem sou, quando não brinco? Um pobre órfão abandonado nas ruas das sensações, tiritando de frio às esquinas da Realidade, tendo que dormir nos degraus da Tristeza e comer o pão dado da Fantasia. De meu pai sei o nome; disseram-me que se chamava Deus, mas o nome não me dá ideia de nada. Ás vezes, na noite, quando me sinto só, chamo por ele e choro, e faço-me uma ideia dele a que possa amar...Mas depois penso que o não conheço, que talvez ele não seja assim, que talvez seja nunca esse o pai da minha alma... Quando acabará isso tudo, estas ruas onde arrasto a minha miséria, e estes degraus onde encolho o meu frio e sinto as mãos da noite por entre os meus farrapos? Se um dia Deus me viesse buscar e me levasse para a sua casa e me desse calor e afeição...Ás vezes penso isto e choro com alegria a pensar que o posso pensar...Mas o vento arrasta-se pela rua fora e as folhas caem no passeio...Ergo os olhos e vejo as estrelas que não têm sentido nenhum...E de tudo isto fico apenas eu, uma pobre criança abandonada, que nenhum Amor quis para seu filho adoptivo, nem nenhuma Amizade para seu companheiro de brinquedos. Tenho frio de mais. Estou tão cansado no meu abandono. Vai buscar, ó Vento, a minha Mãe. Leva-me na Noite para a casa que não conheci...Torna a dar-me, ó Silêncio imenso, a minha ama e o meu berço e a minha canção com que eu dormia..."

FERNANDO PESSOA


(Trecho 88 do LIVRO DO DESASSOSSEGO)

Arte: Koen van den Broek

sábado, 29 de abril de 2017




SEM NEM SER ZEN

Volutas de incenso
Ecoa um koan
Ao sol do oriente

Nanquim cor da noite
Desliza o pincel
Pelo ideograma

Cintila um metal
Ao lume da lâmina
Sonha o samurai

TCHELLO D´BARROS


Arte: Instalação de Tchello d´Barros para os eventos da Galeria Transparente

terça-feira, 25 de abril de 2017


O AMOR

É o amor que me leva.
O amor Ágape.
É esta respiração espiritual
absoluta
que sopra a ansiedade de universo.
É esta onda de delírio calmo
que tudo capta
sem captar.
Que voa de ar em ar,
de azul em azul,
até jamais voltar.
E este ímpeto de me inventar
farta de encanto
nos hiatos da sina
de me sondar.

Solange Brito Silva


Pintura: Sérgio Lopez

sexta-feira, 21 de abril de 2017


Metrô Linha 743
Raul Seixas
  
Ele ia andando pela rua meio apressado
Ele sabia que tava sendo vigiado
Cheguei para ele e disse: Ei amigo, você pode me ceder um cigarro?
Ele disse: Eu dou, mas vá fumar lá do outro lado
Dois homens fumando juntos pode ser muito arriscado!
Disse: O prato mais caro do melhor banquete é
O que se come cabeça de gente que pensa
E os canibais de cabeça descobrem aqueles que pensam
Porque quem pensa, pensa melhor parado.
Desculpe minha pressa, fingindo atrasado
Trabalho em cartório mas sou escritor,
Perdi minha pena nem sei qual foi o mês
Metrô linha 743


O homem apressado me deixou e saiu voando
Aí eu me encostei num poste e fiquei fumando
Três outros chegaram com pistolas na mão,
Um gritou: Mão na cabeça malandro, se não quiser levar chumbo quente nos cornos
Eu disse: Claro, pois não, mas o que é que eu fiz?
Se é documento eu tenho aqui...
Outro disse: Não interessa, pouco importa, fique aí
Eu quero é saber o que você estava pensando
Eu avalio o preço me baseando no nível mental
Que você anda por aí usando
E aí eu lhe digo o preço que sua cabeça agora está custando
Minha cabeça caída, solta no chão
Eu vi meu corpo sem ela pela primeira e última vez
Metrô linha 743

Jogaram minha cabeça oca no lixo da cozinha
E eu era agora um cérebro, um cérebro vivo à vinagrete
Meu cérebro logo pensou: que seja, mas nunca fui tiete
Fui posto à mesa com mais dois
E eram três pratos raros, e foi o maitre que pôs
Senti horror ao ser comido com desejo por um senhor alinhado
Meu último pedaço, antes de ser engolido ainda pensou grilado:
Quem será este desgraçado dono desta zorra toda?
Já tá tudo armado, o jogo dos caçadores canibais
Mas o negócio aqui tá muito bandeira
Tá bandeira demais meu Deus
Cuidado brother, cuidado sábio senhor
É um conselho sério pra vocês
Eu morri e nem sei mesmo qual foi aquele mês
Ah! Metrô linha 743

Escultura: Cabeça de musa - Constantin Brancusi - 1910

quarta-feira, 19 de abril de 2017



OS ANTÚRIOS VERMELHOS

1.
hoje sonhei subterrâneos
caminhávamos lento, numa procissão silenciosa
túnel estreito sob a terra úmida

2.
Florinda e Marli arrancaram inteiros
os antúrios vermelhos 
hospedeiros que cresciam entre limos 
nos vãos das paredes antigas 
— mas eram meus! eu grito
grito que ecoa forte, na imensa galeria
meus! meus! meus!

3.
tento replantá-los no chão, num buraco que abro
com minhas mãos
[doem-me as unhas]
mas encontro sob a terra
um gato de cerâmica azul que ainda respira 
me assusto

4.
agora, procuro meus sapatos
[nos meus sonhos, estou sempre descalça
não sei para onde ir]
vejo a casa que um dia foi nossa, na lateral do túnel
como numa janela
mas está vazia, triste, em tons de sépia, úmida 
alguém me diz: — vai, agora é tua!
mas prefiro seguir em frente, tendo a nítida impressão
de ouvir a voz de meu pai, dos tios, de todos 
os fantasmas da casa
a me dizer:- é por aqui! por aqui! por aqui!


NYDIA BONETTI

Arte: Jean-Michel Folon

terça-feira, 18 de abril de 2017


NARCISO

Menino,
Vais cair no rio!

No fundo há uma rosa
e na rosa há outro rio.

Olha aquele pássaro! Olha
aquele pássaro amarelo!

Caíram-me os olhos
dentro d’água.

Deus meu!
Vai escorregar! Menino!

... E na rosa eu mesmo estou.

Quando se perdeu na água
compreendi. Mas não explico.


NARCISO

Niño,
¡Que te vas a caer al río!

En lo hondo hay una rosa
y en la rosa hay otro río.

¡Mira aquel pájaro! ¡Mira
aquel pájaro amarillo!

Se me han caído los ojos
dentro del agua.

¡Dios mío!
¡Que se resbala! ¡Muchacho!

…Y en la rosa estoy yo mismo.

Cuando se perdió en el agua
comprendí. Pero no explico. 


FEDERICO GARCIA LORCA

Pintura: Rose Wylie

sábado, 15 de abril de 2017


Dragonfly
 Libélula

  Maryse Dumas

 I woke up this morning remembering the French word for
Acordei nesta manhã recordando da palavra francesa para 
dragonfly: une libelule. It was my favorite word when as a child
libélula: “une libelule”. Esta era minha palavra favorita quando criança na
in grade school... the kind of word that adds color and dream...
escola primária… O tipo de palavra que vinha acompanhada de cores e sonhos.

I then realized I have a dragonfly on my page here. Insect of
Eu me dei conta disto ao postar uma libélula no meu blog. Um inseto
fantasy flight, laws of magnetic attraction. This ancient spacy
de vôo misterioso, com forte atração magnética. Um exímio
being hovers in mid air to catch the prism of light or some kind
conhecedor dos ares que faz piruetas para captar o prisma das cores ou algum
 of aura emanating from plants, rivers and flowers.
tipo de aura que emana das plantas, rios e flores.
My friend once told me she spent a whole summer watching
Uma amiga me disse que passou todo verão observando-as
 them in her garden after her brother died. A kind of trance and
no jardim, depois da morte de seu irmão. Um tipo de transe e
 meditation that kept her sane. She stopped painting that year
meditação que ajudou-a a manter-se sana. Ela parou até de pintar por um tempo
and just folded paper making origami. Dragonflies and origami,
e só dobrava papéis fazendo origamis... Libélulas e origamis,
 how Japanese I thought.
“isto é tão japonês”, eu pensei.

Most dragonflies here are red. They come out after the rice has
A maioria das libélulas daqui são vermelhas. Elas aparecem depois da
 been harvested in late August. I sometimes wonder where they
colheita do arroz em Agosto. As vezes tento imaginar onde elas
 hide during the typhoons. Winds strip through fields, rain
se escondem durante os tufões. Ventos que varrem os campos,
 pelting against trees and grass enough to make them raw. As
fustigam as árvores e são capazes até de arrancar todas suas folhas. Mas
soon as the sun shines they come out again until the days cool
assim que o sol aparece, as libélulas voltam e continuam assim até
and persimmons dot the trees orange. Suddenly they´re gone,
que os dias esfriam e os caquis colorem as árvores de laranja. De repente elas desaparecem,
 first the cicadas and then dragonflies, the fields and rivers are
primeiro as cigarras e depois as libélulas, com os campos e rios ficando
 left empty, like a time warp. Those playful pilots of light vanish.
vazios com a trama do tempo. E aquelas exímias planadoras da luz novamente se vão.
In Japanese dragonfly is tombo, which sounds like tambo
Em japonês libélula quer dizer “tombo”, que se parece muito com “tambo”
which means ricefield. I once had a tombo motif scarf, and not
que significa “campos de arroz”. Uma vez eu tive um lenço com libélulas 
so long ago sewed up a childs futon cover with the same
e recentemente eu costurei para as crianças algumas capas de almofada
 tombo motif. I see it here in there, the motif probably goes back to Edo time.
com os mesmos motivos. São desenhos que se repetem desde muitos séculos.
Can´t wait to see them again, summer will sizzle and the light
Estou ansiosa para ver as libélulas novamente. O verão vai surgir,
 will reflect off the water and there they will be.....
sua luz se refletirá nas águas e lá estarão elas outra vez...

A amiga Maryse Dumas é canadense de origem e hoje mora no sul do Japão. Agradeço à Maryse pelo belo texto que traduzi para este site.

A ilustração é uma padronagem de tecido japonês.

quinta-feira, 13 de abril de 2017



SOY

Soy el que sabe que no es menos vano 
que el vano observador que en el espejo 
de silencio y cristal sigue el reflejo 
o el cuerpo (da lo mismo) del hermano. 

Soy, tácitos amigos, el que sabe 
que no hay otra venganza que el olvido 
ni otro perdón. Un dios ha concedido 
al odio humano esta curiosa llave. 

Soy el que pese a tan ilustres modos 
de errar, no ha descifrado el laberinto 
singular y plural, arduo y distinto, 

del tiempo, que es uno y es de todos. 
Soy el que es nadie, el que no fue una espada 
en la guerra. Soy eco, olvido, nada.



JORGE LUIS BORGES

Foto: Registro familiar de um casamento na Argentina, anos 60.

quarta-feira, 12 de abril de 2017


   
Ode to a Bad Example
Ode ao mau exemplo

A curious portrait of postman
Um retrato curioso do carteiro
as dog. Uncut,
enquanto um cão. Não talhado.

cut from the same cloth as all
vestido com as mesmas roupas
common men. Commonly
do homem comum. Amiúde

seen debauching his era—
visto disvirtuando seus iguais
pissing on everyone's collective porch.
urinando em todas as varandas acessíveis.

Falling through life or what passed for it:
Apaixonado pela vida ou o que a represente:
A state of inebriation — drunk on the heady
Um estado de graça — bêbado pela semelhança
and ordinary alike.
e especialmente afinado.

In loose association with loose companions
Em livre conluio com os vadios exemplares
without peers
sem apêgos
without friends
sem amigos
chasing off paternal memories
livre de memórias fraternais
chasing skirts in a most non-paternal manner.
Caçando saias da maneira menos fraternal possivel.

He was on track—
Ele estava na trilha
every day if he could—
todo dia sem esmorecer
burning through bets and betting on getting
perdendo as apostas e apostando e ganhando
loaded, laid,
lotado, deitado

fan mail.
cartas voadoras

A quarrelling brook, a roaring spring
Um riacho saltitante, uma fonte ruidosa
of poetry and prose spilling
de poesia e prosa derramadas
from a soft heart impaled
de um terno coração impalado
on the thorns of his own rose.
nos espinhos de sua própria rosa

Impetus for perfection
Impetuoso para a perfeição
in a love/hate relationship.
Num relacionamento de amor-ódio

He commands, advises, implores,
Ele orienta, avisa, implora
even now, past his prime and
mesmo agora, passado seu lustro e
past his time:
passado seu tempo:

Don't Try.
Nem Tente.

To which I respond:
Para o que eu reajo:

Why would I?
Porque faria isto?


My Photo
David Blaine 

(Pintura de Lucy Culliton)