quinta-feira, 30 de junho de 2011


AFINAÇÃO NA ARTE DE CHUTAR TAMPINHAS

Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforo. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, belezas que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando. Chutar tampinhas que encontro no caminho. (...) Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra. Qual marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a idéia de que para acertar, é necessário pequenas erradas. (...) Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. (...) Descobri com encanto que meus sapatos de borracha se prestam melhor para apurar minha tarefa. (...) A borracha apenas toca o cimento, a tampinha desliza, vai embora. Necessário equilibrar a força dos pés. (...) E mesmo calçando-os fico estudando os chutes. Necessário valorizá-las como merecem, ir trabalhando os pontapés com cautela, até que a borracha se aproxime de leve e atinja a tampinha e a faça subir, voar, pequenas distâncias atravessando a noite. (...) Porque desenvolvo variações, aprendo descobrindo chutes, chaleiras, usando o calcanhar, os lados dos pés. Com o direito, com o esquerdo, meio de lado... Tentativas. Consigo por exemplo embocá-las nos bueiros da rua. Se é impossível trabalhar na calçada, passo para o asfalto e fico a chutar.

João Antônio (do livro Malagueta, Perus e Bacanaço)



quarta-feira, 29 de junho de 2011

Elizabeth Bishop no Rio em 1954.

Ida à Padaria

Esta noite a lua contempla
a avenida Copacabana
em vez de olhar para o mar,
e as coisas mais cotidianas


são novas pra ela. Debruça-se
sobre os fios frouxos dos bondes.
Lá embaixo, os trilhos se esgueiram
até se fundirem ao longe


(entre carros estacionados
que lembram balões coloridos
já murchos e moribundos);
os fios, pela lua atraídos,


somem numa nebulosa
longínqua. A padaria
está imersa na meia-luz –
estamos racionando energia.


Os bolos, de olhar esgazeado,
parecem que vão desmaiar,
As tortas, gosmentas, vermelhas,
doem. O que devo comprar?


Misturam milho à farinha
e as bisnagas ficam doentias –
pacientes de febre amarela
amontoados na enfermaria.


O padeiro, doente, sugere
“pães de leite” em vez de bolo.
Eu compro, e é como levar
um bebezinho no colo.


Sob falsa amendoeira
uma puta ainda menina
dança um chá-chá-chá, girando
como um átomo na esquina.


À sombra negra do meu prédio
um negro levanta a camisa
pra mostra um curativo
cobrindo negra ferida.


Com um bafo de cachaça
potente feito uma bazuca
aponta a bandagem branca
e me diz coisas malucas.


Dou-lhe dinheiro e boa-noite,
por força do hábito. Ah!
Não haveria uma palavra
mais relevante pra lhe dar?


[Pao+bengala.jpg]

Mais pãezinhos aqui:

terça-feira, 28 de junho de 2011


CONTOS, POEMAS E RECEITAS DE ADRIANA VERSIANI

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A velha


Eu, esquecida delirante, sou pastora da igreja invisível.

Todos os dias acordo trinta minutos mais tarde do que costumava fazer Catarina da Rússia e preparo meu pão preto com café.

Sim, eu os ouço. Eles se comunicam comigo.

Hoje, sonhei que milhões de pequenas luzes se dividiam em milhões de pequenas cores, que se dividiam em milhões de pequenas almas, que rodavam em torno de milhões de pequenas naves, que invadiam milhões de corpos celestes.

Sim, eu os vejo. Eles vivem comigo.

Agora são três horas em um pequeno país da Ásia. Pássaros saem de dentro dos corpos que bóiam no rio. São três horas e alguns monges ainda dormem.

Eu, esquecida delirante, pastora da igreja invisível, tenho andado em estado alterado de consciência.

Vivo entre papéis, trouxas, retalhos, restos deixados por meu irmão aqui no quartinho dos fundos onde ele tocava blues.

Sim, eu os percebo. Eles estão comigo.

Todas as noites, trinta minutos antes do que costumava fazer Catarina da Rússia, escrevo o nome dele na areia, o nome dele na areia, o nome dele na areia...

Essa chuva toda enquanto a mão pesada do tempo aperta meu peito.

Sei das falácias do amor e do sexo. Tudo tão velho quanto os manuscritos apócrifos enterrados no solo onde ergueram a biblioteca de Alexandria.

Mas, um dia, a loucura cegou o amor e os dois se arrastaram pelo chão.

Sim, eu os amo. Eles sonham comigo

Eu, esquecida delirante, pastora da igreja invisível, capto em ondas curtas a voz dos mortos à luz do dia.


Sonata (fragmento)


mênstruo no lençol de linho

Com uma lasca, abro as veias do pulso e um rio escorre e a lasca é pedra, seixo,

cascalho do rio.

longe um som de guizos entorpece o leito vermelho e acompanha a trilha que é pedra, lasca, corrente do rio.

Com os olhos fechados, vejo luzes douradas no céu escuro que agora azul, é pedra, seixo, lasca no pulso aberto do rio.


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Nautikkon, um Navio no Espaço.

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segunda-feira, 27 de junho de 2011

Exposição reúne trabalhos do artista plástico Leonilson
Leonilson

PARA COMEÇAR A FALAR EM LÖIC

.......No meio deste tempo conhecemos uma pequena duende

japonesa que riscava paredes chamando de aspirado

res elefantes ou dinossauros àquilo que fazia

gastamos 15 dias na construção do iglú

os vulcões não foram acesos e meus livros foram

roubados

Como éramos gente do deserto , Löic e eu resolve

mos subir até a montanha na cidade das casas anti

gas , mais um quarto comprido e fino , nessa tarde

achamos um patinho de vidro provavelmente de se

colocar na frente de uma carro americano.....

domingo, 26 de junho de 2011


Cenas de Lavoura Arcáica

AÍ PELAS TRÊS DA TARDE

Nesta sala atulhada de mesas, máquinas e papéis, onde invejáveis escreventes dividiram entre si o bom senso do mundo, aplicando-se em idéias claras apesar do ruído e do mormaço, seguros ao se pronunciarem sobre problemas que afligem o homem moderno (espécie da qual você, milenarmente cansado, talvez se sinta um tanto excluído), largue tudo de repente sob olhares à sua volta, componha uma cara de louco quieto e perigoso, faça os gestos mais calmos quanto os tais escribas mais severos, dê um largo “ciao” ao trabalho do dia, assim como quem se despede da vida, e surpreenda um pouco mais tarde, com sua presença em hora tão insólita, os que estiveram em casa ocupados na limpeza dos armários, que você não sabia antes como era conduzida. Convém não responder aos olhares interrogativos, deixando crescer, por instantes, a intensa espectativa que se instala. Mas não exagere na medida e suba sem demora ao quarto, libertando aí os pés das meias e dos sapatos, tirando a roupa do corpo como se tirasse a importância das coisas, pondo-se enfim em vestes mínimas, quem sabe até em pêlo, mas sem ferir o pudor (o seu pudor, bem entendido), e aceitando ao mesmo tempo, como boa verdade provisória, toda mudança de comportamento. Feito um banhista incerto, assome depois com sua nudez no trampolim do patamar e avance dois passos como se fosse beirar um salto, silenciando de vez, embaixo, o surto abafado dos comentários. Nada de grandes lances. Desça, sem pressa, degrau por degrau, sendo tolerante com o espanto (coitados!) dos pobres familiares, que cobrem a boca com a mão enquanto se comprimem ao pé da escada. Passe por eles calado, circule pela casa toda como se andasse numa praia deserta (mas sempre com a mesma cara de louco ainda não precipitado), e se achegue depois, com cuidado e ternura, junto à rede languidamente envergada entre plantas lá no terraço. Largue-se nela como quem se larga na vida, e vá fundo nesse mergulho: cerre as abas da rede sobre os olhos e, com um impulso do pé (já não importa em que apoio), goze a fantasia de se sentir embalado pelo mundo.

Um conto de Raduan Nassar


Raduan Nassar

Conto compartilhado do site VEREDAS, que pode ser consultado aqui.

sábado, 25 de junho de 2011

O Cristianismo irá acabar. Irá diminuir e sumir. Eu não preciso de argumentos para provar isso. Eu estou certo e será confirmado que estou certo. Nós somos mais populares que Jesus hoje em dia; não sei quem será esquecido primeiro, se o rock and roll ou o Cristianismo. Jesus era bom, mas seus discípulos são cabeças-dura e ordinários. Eles distorcem toda verdade cristã, e é isto que faz com que não signifiquem nada para mim.
John Lennon (em 1966)


John apresentando seu livro IN HIS OWN WRITE.

IN HIS OWN WRITE, o primeiro livro de John.

IN HIS OWN WORDS (coletânea de pensamentos dele).

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Era uma vez um homem que tinha uma galinha. Subitamente, em dia inesperado, a galinha pôs um ovo de ouro. Ouro!
Outro dia, outro ovo. Outro ovo de ouro! O homem mal podia dormir:
Esperava todas as manhãs pelo ovo de ouro – clara, gema, gala, tudo de ouro! – que o tiraria da miséria aos poucos, e aos poucos o ia guindando ao milionarismo. O fato, que antigamente poderia passar despercebido, na data de hoje atraia verdadeiras multidões. E não só multidões. Rádio, jornais, televisão, tudo entrevistava o homem, pedindo-lhe impressões, querendo saber detalhes de como acontecera o espantoso acontecimento. E a galinha, também, dando aqui e ali seus shows diante dos jornais, câmeras, microfones.
Certa vez, mesmo num esforço de reportagem, conseguiu pôr um ovo diante da câmara da TV. Porém, o tempo passou e muito antes que o homem conseguisse ficar rico, a galinha deixou de botar ovos de ouro. Desesperado, o homem foi ocultando o fato até que certo dia, não se contendo mais, abriu a galinha para apanhar os ovos que ela tivesse lá dentro. Para sua surpresa, não havia nenhum.
Então o homem – espirito bem moderno – resolveu explorar o nome que lhe ficara do acontecimento e abriu um enorme Galeto, com o sugestivo nome de Aos Ovos de Ouro. E isso lhe deu muito mais dinheiro do que a galinha propriamento dita.


Moral: Crie galinhas e deita-te no ninho.


Millôr Fernandes

Leia FABULAS FABULOSAS de Millôr Fernandes aqui.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ensinando-me feitiçaria Don Juan me deu um novo conjunto de interpretações, uma nova linguagem e uma nova maneira de ver o mundo. Uma vez eu li um pouco da filosofia da linguagem de Ludwig Wittgenstein e ele riu e disse: seu amigo Wittgenstein amarrou o nó com muita força em torno de próprio pescoço, assim ele não pode ir muito longe...

Carlos Castaneda



Clique para ler a entrevista completa de Carlos Castaneda.

Leia VIAGEM À IXTLAN aqui.

terça-feira, 21 de junho de 2011

segunda-feira, 20 de junho de 2011

As regras pessoais de escrita de Clarice Lispector


Notações de Clarice

1) Ler tirando o excesso de adjetivos brilhantes
2) Ler tirando as palavras "modernas", as soluções modernas, os modismos, as repetições que indicam processos fáceis.
3) Ler tirando tudo o que sinceramente não parecer bem, parecer quebrar (?).
4) Se puder em alguns casos, deixar os fatos indicativos, tirando a idéia.
5) Ler tirando o que parece com Joana (*).
6) Retirar paradoxos, pensamentos complicado-fácil (sic).
7) Tirar certo grandioso (sic).
8) Modificar frases excessivamente ricas.
9) O presente ou imperfeito são os únicos tempos nobres do romance (colocado entre aspas à mão).
10) Tirar o excesso do primeiro capítulo: o tempo rodava sobre si mesmo... Fazer mais limpo, mais gideano.
11) Tirar os brinquedos, os tom falsamente inocente. Tudo é sério.
12) Tirar os "como" de analogia: a coisa é o que ela simboliza. Não bonita como um lirio, mas ela era um lirio.
13) Fazer diálogos vazios e vulgares entre as pessoas.
14) Não fazer dos outros personagens uns bonecos: surgem pouco, mas dão impressão de vida e profundeza.
15) Apagar os vestígios de qualquer processo - não explorar senão de modo diferente os achados.
16) Espalhar mais ela-não-sabia-que-pensava.
17) espalhar a vulgaridade dela em várias cenas.
18) Esqueci o lado ridículo de Daniel, mesmo (?)... (Este item foi escrito à mão por Clarice, não dá para ler a continuidade)


Notas:
Estas regras parecem ter sido criadas para O Lustre, o segundo livro de Clarice, escrito em 1946.
(*) Joana era personagem de Perto do Coração Selvagem, primeiro romance de Clarice.
(?) : dúvidas ao texto... Ou quando existe uma citação que somente a autora conhece a fonte.


O romance O LUSTRE pode ser lido clicando aqui.

O manuscrito de Clarice Lispector pode ser lido ampliadamente aqui.

domingo, 19 de junho de 2011

sábado, 18 de junho de 2011

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Inventor, teórico, refletiu e interrogou a brasilidade e a universalidade da arte, sempre inconformista e indiferente à moda. – Arte concreta, Neoconcretismo, Parangolé, Tropicália, vanguarda brasileira dos agitados anos 60, White Chapel Galery (Londres), seis ou sete anos de Nova Iorque; uma vida de tensão em fazer arte e habitar o mundo.

Almandrade sobre Hélio Oiticica



Texto do Almandrade aqui.

quinta-feira, 16 de junho de 2011

João Miramar abandona momentaneamente o periodismo para fazer a sua entrada de homem moderno na espinhosa carreira das letras. E apresenta-se como o produto improvisado e portanto imprevisto e quiçá chocante para muitos, de uma época insofismável de transição. Como os tanks, os aviões de bombardeio sobre as cidades encolhidas de pavor, os gases asfixiantes e as terríveis minas, o seu estilo e a sua personalidade nasceram das clarinadas caóticas da guerra.

Oswald de Andrade




Clique no furacão cubista de Memorias Sentimentais de João Miramar.

terça-feira, 14 de junho de 2011



Cato no chão migalhas do banquete dos que comem. O que houve? Eu nunca mais ouvi chamar meu nome. A rua é reta, a vida é torta. Quem se importa se eu vou morrer de sede ou se eu vou morrer de fome? O sol está nas bancas de revista e na capa da revista temos sombra, grana e água fresca...

Zeca Baleiro

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Solidão de inverno -
em um mundo de uma só cor
o som do vento.

Matsuo Bashô



Como sou um andarilho
por um momento eu troco de nome -
primeira chuva de inverno

Matsuo Bashô

domingo, 5 de junho de 2011

"Their talk was endless, compulsive, and indulgent, sometimes sounding like the remains of the English language after having been hashed over by nuclear war survivors for a few hundred years."
Douglas Coupland (Generation X: Tales for an Accelerated Culture)



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sábado, 4 de junho de 2011

Despojai-vos de toda essa grandeza
de dões; e ficareis em toda a arte
convosco só, que é só ser inumana.

(Camões)


O cânone dos Lusíadas entregue pelo poeta à Vasco da Gama.

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