quarta-feira, 14 de dezembro de 2011


Pornô

Ele chupa-te.
Tu te ajoelhas
para que ele
te pegue por trás.
Depois
pequenos fracassos
diálogos poupados.
Alguns tostões
dos dele
juntam-se aos teus.
Quanto mais de Felicidade
pode a vida trazer-te?


Enio Mainardi


(Clique aqui para mais poemas de Enio Mainardi)

quinta-feira, 24 de novembro de 2011


TRINTA E TRÊS INCLUSÕES AVULSAS DE DEUS


(Para Marguerite Yourcenar)


Deus está em tudo. Mas. Geralmente. Com os olhos semicerrados. Nos sentimos uns trastes quando acordamos. Mastins do sono que ainda nos perseguem. Um olhar torto para o céu que está revestido de nuvens escuras. O mar de manhã é, na friagem, tão inimigo de espalhar águas agradáveis. Talvez. Por estar oculto. Numa confraria de neblinas que teimam em esconder a beleza das águas que se espicham e voltam ao mesmo lugar de antes. O pensamento nos leva a outras umidades latentes. Como a certos nichos instalados na serrania acolá, também camuflada. Nestes recantos. O barulho das fontes nos rochedos rolando sobre paredes ígneas. Um milagre de ofertas tão diversas que nos ocorrem. Próprio do ventar permanente que açoita o mar em direção à uma pequena ilha. Ou aqui mesmo, neste jardim ocluso, uma abelha que procura por seu sustento de flor em flor. Alguns bancos de madeira já carcomidos pelo tempo. Uma praça pouco freqüentada, mesmo no verão. Pouco tempo antes. Dois meses para sermos exatos. Um cálido final de tarde. Mostrava um conjunto de pássaros que partiam para veranear no sul. Este vôo triangular dos cisnes parece que se repete nas nuvens que agora correm. Repleta de cordeirinhos recém-nascidos. Frios que se adivinham. Nas vozes que chegam desde galpões forrados de feno. No mugido doce da vaca, o qual não difere muito do selvagem touro. Ou do mugido paciente do boi. Todos lamentam pelo capim seco. Sonham com seus prados particulares. Quentes como o fogo vermelho no fogão. Ideal para as narinas cansadas do confinamento. O cheiro do capim novo brotando da terra. Quando os passarinhos de vôo curto surgem no meio dos tufos de grama. Também eles cultuam a terra boa. Os gorjeios que repetem a harmonia de uma peça musical milenar. Pacientes talvez. Como a garça que esperou toda noite, meio enregelada, e que vai matar sua fome ao nascer do sol. Frêmito de vida. Regida fielmente. Por um. Deus que existe. Mesmo no peixinho que desistiu de lutar, já agonizante no papo da garça. Um resumo que não agrada. Ao final feliz todos somos capacitados. Assim pensamos. Que a vida não passa de um capricho de algum louco quixotesco. O desmiolado que se apresenta para torcer nosso nariz quando pedimos carinho. Dele não planejamos dúvidas. Um toque de razão que acaba por nos tornar também ridículos. Quando nosso tato se revela. Mãos que entram em contato com o que existe. De frio, de tépido, de quente ou de afável. Nossa pele e toda superfície do corpo. O olhar que tudo abrange. As nove portas da percepção. Um corpo querido que revele algures. O torso feminino ao espelho. Som de beijos em acolhida. O farfalhar de roupas que se espalha no afã do amor. O som da respiração apressada. Ao passo de danças. Som de viola num repique. Som da flauta indígena prestigiando o vôo do condor. Um gole na aguardente que queima nossa alma. Um gole na água fria que corre entre pedras num riacho. O vinho à mesa. Ofertas. Do pão que sacia nossa fome. Mãos que se procuram. Passos por um caminho sombreado por árvores frutíferas. Súbito. A revelação de flores que nascem para cumprimentar a primavera. Um sonho tudo isto. Como um bom sono na cama. Nossa juventude preservada na aragem. Uma réstia de conhecimento que se afirma. Como um cego que canta sua canção decorada. Uma criança proibida de brincar com outros garotos. Mesmo na febre da enfermidade temporária. Adivinha que outros passos infantis brincam ali perto. Tal qual cavalos que correm em campo aberto. Frutos de nossa livre vida. A cadela sendo seguida por sua ninhada. O sol nascendo sobre um lago enregelado. Ou o relâmpago silencioso. Mesclando o céu de certezas. Um temporal que jamais irá se apresentar. Quando num repente. Um estrondo de trovão. E a conversa de dois amigos silencia. Aquela voz abrupta, gigantesca, que veio do leste, entra pela percepção de nossos ouvidos, e nos ensinam mais uma das músicas de Deus. A voz grave do relógio de prata de nosso Criador. Se a gente reparasse. Viveríamos a cada instante imersos na alegria de existir. Devolvendo para Deus a prata mesclada com o ouro dos nossos sentimentos.


Beto Palaio



terça-feira, 22 de novembro de 2011


Crosby, Still, Nash & Young – (Helpless) Sem remédio.


THE NATURE POEM


The moon

is Hamlet

on a motorcyle

coming down

a dark road.

He is wearing

a black leather

jacket and

boots.

I have

nowhere

to go.

I will ride

all night.


O POEMA NATURAL


A lua

é Hamlet

numa motocicleta

descendo

uma rua escura.

Ela está usando

um blusão

de couro

e botas.

Eu não tenho

lugar nenhum

para ir.

Vou perambular

a noite toda.


Richard Brautigan

sábado, 19 de novembro de 2011


POEMA PARA FABRICAR AZUIS

Um jukebox empurra azul atrás de azul
O azul cai, o azul empina no manufaturado
Azul na rotação da indústria circulante
O deus Lazuli faz massa de azul cobalto
Pressa de sapo nesta graça de vir a ser
Pula aqui, pula lá, um azul atrás de outro
Sobe e desce azulão. Desce e sobe azulzinho
Embrulhadinhos um no outro, azul com azul
São todos assim, dropes de azulejos sonhados
No azinhavre dos vitrais de Marc Chagall
Azul do Mediterrâneo, azul do rio Trombetas
Lua que navega em azul, sol que inventa azul
Azul pupila, azul mandrágora, azul kundalini
Surgem à noitinha estrelas no céu azul profundo
Seu sorriso, seus olhos azuis, seu toque de seda
A felicidade é azul, a terra é azul, o amor é azul
Uma rosa azul despetalou daqui, e voou longe
Foi para o beiral, caiu na rua, flutuou azul demais
No vai e vem da correnteza, ao brotar o ir e vir
No mar, o mar, do mar, ao mar, todo azul do mar.

Beto Palaio

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Charming Baker art (1)

A BELA E A FERA


A bela não ama uma fera?

Ela viu dentro da fera a beleza que a fera tinha.

Não conhece a estória da Bela e a Fera?

É a mesma coisa... Entendeu?

Entendeu ou não entendeu?


Ianê Mello


Pintura de Charming Baker

quinta-feira, 17 de novembro de 2011




SOLOMBRA


Aquele pequeno restaurante dentro de um hotel, em Copacabana, está praticamente vazio. O incrível. É que. Nem um tubarão-garrafa mamaria tanto quanto Solombra mamou de uísque na noite anterior. Como consequência. Arre, e afia, o fígado, quando ele acordou pela manhã. “Me dá um pingado de pimenta”, ele pediu isto ao garçom, que já se preparava para lhe servir, apesar de ser ainda muito cedo, o café da manhã. Solombra falava em ingerir um copo cheio de pimenta, o que deixou o garçom sem saber que atitude tomar. Solombra então grita com ele: “Haja? Pois, se não haja, osga para você!”. Este improvável cliente lhe arrenega com o sinal característico de desprezo, se exibindo malcriado, ao colocar um braço aninhado no cotovelo do outro braço. Naquele momento ele está péssimo. Disfarçava os arrotos. Olhava para as mesas vazias fingindo ver pessoas conhecidas. “Olá, há quanto tempo, heim?... Como vai essa excelente pessoa?”. Fingia tirar um chapéu que jamais existiu em sua cabeça. Com a perspectiva de alguma influência cósmica. Pode ser que a manhã lá fora estivesse louca. Chovia e fazia sol. Estava calor e ventava frio. Enquanto isto, “valha-me, Deus”, o garçom evitava vir à mesa de Solombra. Achava-o completamente febril e inconseqüente. “Vi a ponta de um revolver sob o paletó dele”, com reservas justificáveis, o garçom temia qualquer loucura vindo da parte de Solombra. Como de fato. Ele estava ali para esperar por uma mulher e matá-la. “Haja o que houver, mato-a, depois eu me entendo com as autoridades... Ademais ela é uma vagabunda... E também, pouco me importa o que aconteça comigo, pois todos têm o direito a um primeiro crime... Isto está escrito na lei”. Logo Solombra faz um sinal para o garçom chamando-o ostensivamente. O garçom enche-se de coragem e chega até sua mesa. Quando se aproxima, Solombra junta dois de seus longos dedos fechados, apontando para si mesmo. O garçom tremia. Claramente não era afeito à violências, muito menos cara a cara com o perigo. “Olha, garçom... Vou lhe pedir uma coisinha... Porque essa cara de espanto, homem?... Escuta... Você conhece a moça sueca do quinto andar?”. Sem esperar resposta, Solombra dá um murro violento na mesa do restaurante e concluí o que quis falar: “pois vou matá-la hoje... Está entendendo?”. Como se fosse uma estória inverossímil que se passa num subúrbio de Chicago, num livro chamado Os Matadores, em complô com outro livro denominado Um País Cheio de Suecos. Naquele restaurante do Rio de Janeiro, um abissal Solombra usa os artefatos que está sobre a mesa para demonstrar sua tática: coloca o açucareiro como sendo ele mesmo, o maioral, deposita na frente do açucareiro um pequeno saleiro para representar a loira sueca e, por fim, põe com cuidado um pedaço de pão entre esses dois itens dizendo que aquilo representava o garçom. “Veja só que lhe explico como faria sua professora primária”, Solombra respira fundo e continua, “esse açucareiro aqui carece de estar perto daquele saleiro ali... Entendeu?... Mas necessita de informações precisas desse naco de pão aqui... Entendeu mesmo?”. Depois Solombra quis saber quem mais estava ali no restaurante. O garçom falou que era o cozinheiro que estava no reservado aquecendo os pratos. “Chame aqui o cozinheiro”, decretou Solombra. O garçom quis rir desse pedido, sorriu na verdade, cumprindo algo dentro dele mesmo, por medo do que lhe ocorresse, ou o respeito que tinha pelas normas do hotel. “Mas, senhor...”, com isto Solombra alisou o revolver, por cima do paletó, como se fosse retirá-lo do coldre. “Sim, senhor...”, completou o garçom e saiu rapidamente em direção ao reservado. Logo ele surge acompanhado de um senhor nordestino, cara de índio, que estava de avental e capuz branco. O cozinheiro esfrega as mãos no avental sem parar e aguarda o Solombra se espreguiçar e depois voltar a sua posição natural na mesa. “O senhor é o cozinheiro?”, e sem esperar pela resposta: “pois bem... Não quero nenhuma conversa aqui dentro a não ser para atenderem a sueca que, pelos meus cálculos, deve estar já descendo pelo elevador... Ela sempre vem tomar seu café quando são sete e trinta em ponto, não é?”. Ambos, cozinheiro e garçom fizeram que sim com a cabeça. “Então faltam apenas dez minutos para a festa...”. Olhando ainda para o cozinheiro, ele pediu um prato rápido: “faça para mim um misto-quente... Com pouco presunto... Ok?”. E continuou ali esperando pela moça sueca que chegaria em apenas nove minutos, aliás em oito minutos, aliás em sete minutos, aliás em seis minutos, aliás em cinco minutos, aliás em quatro minutos, aliás em três minutos, aliás em dois minutos, aliás em um minuto... Aliás, ela não veio hoje... Algo aconteceu que a sueca não desceu para seu desjejum... Solombra nem chegou a tocar no seu misto-quente... Agradeceu resmungando ao garçom e saiu pela porta automática de vidro que se abre quando uma pessoa se aproxima dela... Depois Solombra foi andar pelas ruas de Copacabana, enquanto a loura sueca ainda dormia entre os travesseiros em seu quarto de hotel.


Beto Palaio

sábado, 12 de novembro de 2011

Olympia - Edouard Manet - Óleo sobre tela - 1863


COMPADRE MANET E COMADRE OLIMPIA

No quarto de Olímpia. Eduardo Manet ficou ali por um tempo bem curto. A palavra ternura em seus olhos. Especialmente promissora. Olímpia estava casada fazia sete anos com um banqueiro local. Entretanto. Cristais que se mantém limpos por exterioridades. Ela era. Semi-instruída no amor avulso. “Não se trata disto, compadre, o homem é pura desconfiança desde sempre... O meu desconfia até da sombra... Mas que sombra gorda, não é compadre?”. Olímpia chamava Manet de “compadre”. Uma intimidade de gente de interior. Superficialidade gratuita. Costumes de moça da roça para um antigo cavalariço. O pintor a olhou, conforme descrito no início deste conto, com distanciada ternura. Um vento bateu na janela que foi logo fechada por Amely, a ama protetora de Olímpia. Uma certidão de futricas envolvia essa mulher da alta sociedade parisiense. Não obstante. O caminho desta estória está seguindo aquele velho chavão do “você soube?”, onde se destrava a guia de corte fotográfico e a estória flui que é uma beleza. Doce língua bárbara é aquela que inventa estórias. Sorrateiramente o mundo sonhado se desvenda e, depois, revela tudo o que até então se desenhava de forma econômica. Manet tinha grandes idéias ao pintar o retrato de Olímpia. Enquanto Amely lhe mostrava um buquê de generosas flores. Ela falava para ele num linguajar entrecortado. Uma província de infidelidades se desfraldava além. Uma paisagem demorada. Como se a parelha de cavalos puxassem a carruagem de forma manietada. Qualquer coisa aconteceria além daqueles campos repletos de pequenos amontoados de feno. Olimpicamente, os versos são feitos de vento. E o campo é antigo, abrigado por uma terra gasta e negra. Estivera chovendo a noite toda. Mas uma esplêndida claridade abriu um regaço nas nuvens. A palavra surgiu. E nasce um dia proveitoso e belo. Pássaros cantam no prado agora verdejante. Além, um chalezinho de montanha. Um caminho entre pedras de cantaria. Bocas e batons dentro da carruagem. Olímpia e duas amigas chegam ao endereço combinado. Ela agenciava moças para um certo Capitão Rodrigo. Ele contratara Olímpia para este trabalho insano. Pois ela agia discretamente. Tinha grandes relacionamentos com a parentela distante. Todos a tinham como uma estrela embalsamada na riqueza. Enquanto. Ela mandava recados de rosa dos ventos. Para o norte, “peça para Mariazinha vir me visitar”. Para o sul, “avise a Lidia que chegou a hora dela conhecer Paris”. Para o leste, “escrevi este bilhete para a Clarissa... Depois de ler ela vai ajeitar as malas e vir morar comigo... Aguarde para que ela venha na mesma carruagem que você”. Para o oeste não havia recado nenhum, pois o oceano imenso deitava ondas desde a Inglaterra até Nova York. Em completa verdade. Na sórdida muralha nua. “Minha vida. Pois não joguei fora com um tal de Reinaldo?”. Olímpia revela as escadarias sombreadas de um velho sobrado. Reinaldo era sobrinho de um contra-almirante holandês. Orgulhoso do tio, ele exibia uma velha bússola de marinharia mantida num estojo revestido de veludo azul escuro. Ainda, como num broche, um antigo paquete de velas arriadas, um mimo feito de ouro. Foi muito curta a estadia de Olímpia na casa de Reinaldo. Ali ela desfraldava suas fantasias em longas divagações silenciosas. “Cheirávamos ópio. O que você espera de quem cheira ópio além de divagações fantasiosas?”. Depois ela morou só em Paris. À custa de um finório cafajeste. Um cafetão de nome Capitão Rodrigo. “As luzes da cidade. Esse espanhol fascinante. Acabei fazendo uma besteira”. Olímpia revelava ao seu compadre Manet as suas primeiras incursões na venda do próprio corpo: “não é tão mal assim, compadre... A putaria é muito organizada... Há essa indignação geral que até compreendo... Mas tudo isso não passa de futricas vindo de pessoas quebrantadas, sem talento para o amor, tentando justificar suas pobres vidas”. Manet ouvia essas confissões com a reserva de um amigo atento. Ele preparava mais uma seção de pintura onde o verde esmeralda teria papel preponderante para o cortinado e o fundo que realçaria Amely sobrecarregada de flores. “E você não soube?”. Com esta pergunta Manet ficou alarmado. Tinha perdido parte da conversa de Olímpia. “Não soube o que?”, ele perguntou para ela. “Compadre, você não estava prestando atenção ao que eu falava?”. Manet, ainda no trabalho de apertar um tubo de tinta à óleo da cor verde esmeralda, fez sinal com a cabeça que não estava mesmo prestando atenção ao que ela falava. “Ah, não importa compadre... Não importa mesmo”. Olímpia fez um biquinho com os lábios como se estivesse arreliada com ele. Depois sorriu e retirou, do buquê que Amely lhe ofertava, uma grande flor vermelha que ajeitou no cabelo. “Que linda!”, exclamou Manet. A seguir o pintor deixou de lado o tubo verde esmeralda, apressado como quem não quer perder a inspiração, procurou na caixa de tintas pelos tubos de cores vermelhas.

Beto Palaio

quinta-feira, 10 de novembro de 2011



Evandro Affonso Ferreira (Araxá MG 1945). Contista, romancista e livreiro. Abandona a escola aos 10 anos para trabalhar na loja de calçados do pai. Vive em Brasília entre 1959 e 1962. Em 1963 transfere-se com a família para a cidade de São Paulo, e emprega-se em um banco até 1978. Depois, trabalha como redator publicitário até sofrer um infarto, em 1990. Após passar um mês no hospital, decide dedicar-se integralmente à literatura: em 1991 monta o sebo Sagarana, com o acervo de 3 mil volumes que tem em casa. Cinco anos depois, publica um livro de humor, Bombons Recheados de Cicuta, hoje renegado pelo próprio autor. No ano 2000 publica Grogotó!, livro que define um estilo pessoal e chama a atenção da crítica: com 73 contos curtos, alguns deles com menos de 30 palavras, Ferreira demonstra forte atração pela sonoridade dos vocábulos (muitas vezes recolhidos ou inspirados no tupi ou no iorubá), pela inventividade do léxico, pelo humor cáustico e por desfechos inesperados. Em 2002 fecha o sebo. Nos anos seguintes publica os romancesErefuê, Zaratempô! e Catrâmbias!. Em 2005 retoma a atividade de livreiro, monta um novo sebo em São Paulo, o Avalovara.

terça-feira, 8 de novembro de 2011


Joanna Frueh - "Elective Affinities", 2006, 8 watercolors/arches paper, each 61x46 cm.

Clairvoyance (for those in the desert):

performance

pieces, 1979-2004

Por Joanna Frueh

sexta-feira, 4 de novembro de 2011



O PÉ DE CHUCHU DE MINHA AVÓ E A REVOLUÇÃO DE 64.


Porque esse xis? Apague o xis. Ponha. Um pouco de cor lá. É tudo amarelo lá? Porque essa cor de palha? Tudo é feito de palha? Guardando o material de classe. Faltam dois minutos para darem o sinal de saída. Indo direto para o anexo da sacristia. Um catecismo para cumprir a primeira comunhão. “Só tu conduz. A graça, a luz”. O menino dormia até no ônibus urbano. Indo. Sempre de sono. Em sono. Sem perspectiva nenhuma. O povo é submisso. Correrias. Tudo para lá. Na volta. Tudo para cá. Na ida. E chega o final do dia. Abro o portão de casa. “Oi mãe, cheguei”, era assim que eu sempre entrava em casa. “Mãe, você acha que o mundo vai acabar mesmo em 1960?”. Perguntinhas que caíram no gosto popular em 1959. O desenho todo era caótico. Entretanto. Zefa garantiu que sim. “Uma beleza de rabisco no papel de embrulho”. Sonatas sobrenaturais para viver o corriqueiro da folhinha. Perda de tempo colorida. Perfume de bolo no forno. Picadinho de sabonete para fabricar detergente. “Não chateia, meu filho... E leva esse pedaço de bolo para sua avó”. Lá vou eu com um pratinho embrulhado em guardanapo de pano. “De mãe para mãe”. No correio do coração. Mãe é Zefa. Mãe é Maria. Mãe é Catita. Mãe é profundidade. “Pode melhorar a sombra desse abismo no desenho. Assim está sem profundidade”. Minha mãe ouvia novela no rádio. Intensa Magia. Lá fora, entretanto, surgiam as marcas, surpresas engatilhadas, dos anos sessenta. O pavão de Janeiro de 1960 mostrava suas belezas fugazes. Um fósforo Granada: minha namorada se chama Ana, eu lhe pedi Grana, ela disse que não tinha Nada. Por pouco. Ali perto. Assistimos ao adestramento de compasso do exército brasileiro. Perdidas ilusões. Comercial de TV com o Brasil de calças curtas. Cinema gratuito antes do filme principal. Uma chuva de granizo acabou com o chuchuzeiro da vovó. “Renascerá, em outros quintais. Este aqui. O meu chuchuzeiro, nunca mais”. Vidas que passam como luzes que se apagam. Mas enquanto viveram. Foram. Rosas por demais honrosas. Especialmente na palavra ternura. Votos de felicidade pelo novo ano. 1960. Irreconhecível, no diário, onde coisa alguma é besteira. “Esse menino não tem dono?”. Tal e qual. Cabelo e pés encardidos. Um pequeno hippie temporão. Eu ficava sentado do lado da máquina de costura de minha avó. Observando que ela costurava fardamentos verdes para o exército brasileiro. Depois minha avó juntava a produção da semana. Sábado era dia de féria. “Vamos ser úteis para a pátria... Ou você pensa que a vida é só brincadeira?”. Ia com minha avó Maria entregar a costura no quartel em Santana. Tanto pacote verde-azeitona saía daquele taxi! Vai ver que foi minha avó quem colaborou indiretamente para a Revolução de 1964: “se ela se recusasse a costurar para o exército brasileiro. Será que haveria aquele enxame de soldados na rua em Março de 1964?”. Livre pensar é só pensar. Imaginemos então que a tomada de poder pelos militares em 31 de Março de 1964 não tivesse dado certo. Logo surgiria o revide dos comunistas: “junte as coisas, vó... A contra-revolução vem aqui confiscar sua máquina de costura Singer”, e ela, luz no que estaria acontecendo, diria simplesmente, enquanto ainda, continuaria impávida e colossalmente, costurar uma calça verde-azeitona: “sou o tipo de mulher que não nasceu para ser caçada”. Quietamente. No quintal pobre. Lá fora, perto do muro. Uma muda de chuchu foi replantada. As folhas pequeninas despontam. Não há pressa. Logo, talvez em 1967, ou 1968, o chuchuzeiro da vovó estará novamente carregado de chuchus.



Beto Palaio


quinta-feira, 3 de novembro de 2011


A CARNE


A carne cobre os ossos e colocam uma mente ali dentro e algumas vezes uma alma.
E as mulheres quebram vasos contra as paredes e os homens bebem demais e ninguém encontra o par ideal, mas seguem na procura rastejando para dentro e para fora dos leitos.

A carne cobre os ossos e a carne busca muito mais do que mera carne.
De fato, não há qualquer chance: estamos todos presos a um destino singular. Ninguém nunca encontra o par ideal.

As lixeiras da cidade se completam, os ferros-velhos se completam, os hospícios se completam, as sepulturas se completam, mas nada mais se completa.


Charles Bukowski

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

POEMA EM LINHA RETA


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma covardia!
Não, são todos o Ideal, se os ouço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


Álvaro de Campos


(leitura de Osmar Prado em O Clone)

terça-feira, 1 de novembro de 2011

HAICAIS com frases pescadas aleatoriamente
em william SHAKESPEARE.
Shakespeare in London

Silver Street in Cripplegate - Ralph Agas - 1633


Boatos de que o próprio rei

Onde ele costumava tomar cerveja

Nada acabou senão a madeira e a palha


Da alma sincera a união

Duvida até da luz dos astros

Que norteia velas errantes


A monstruosidade do amor

Loucura temperada,doçura refinada

Mar de lagrimas dos amantes


O tempo é muito lento

Para os que esperam. E rápido

Para os que têm medo


Tua cabeleira ao arame é igual

Mas tal rosa a sua face não iguala

Por ti todas as culpas eu suporto


Vergado pela própria dimensão

Por que hei de temer a perfídia

A melhor sala de aula do mundo


O sonho, o amor e a fantasia

Sofrem tempestades sem nunca findar

Boa é a noite que amanhece o dia


1) Silver Street é a rua onde morou Shakespeare em Londres.

2) As frases foram colhidas em textos diversos de Shakespeare.