quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013


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O CAMAFEU DE SOL


Um camafeu de sol para se abrir nas missas de Domingo. A fé que age como um farol distante. Um lusco-fusco na vida de Angelimércia. Quando não havia mais para onde correr. Sua cidade por excesso de ser pequena. Caixa de palitos de fósforos ganha em latitude e longitude. Ali: asfalto, terra e paralelepípedos. Mas os paralelepípedos multiplicavam-se. Rochas de granitos cortadas de forma absolutamente iguais, milhares delas. Ao chegar perto do Rio Perequê, a estradinha de paralelepípedos se transforma em terra batida. Ao consórcio de mata fechada, um ruído de riacho correndo por sobre pedras. Embora não se descortinasse o rio desde o lance de estrada. O barro que procriava criaturas, árvores, pássaros e insetos. O que na estrada se pisava. Amiúde. Saltando poças de água lamacenta formadas nesta madrugada. Uma anta saltou da mata ciliar para o rio. Ouviu Angelimércia o fragor. No velho rio, a anta salta, estrondo na água. Putz, é um livro! O que a vida registra. Sem que se discorram os fatos verídicos, ditos incoercíveis, em alfarrábios de tabelião. A vida de Angelimércia não tem sido fácil. Tudo lhe causa terror. Ela tentou fazer uma experiência para se isolar do mundo e suas inúmeras contradições, para si unicamente, construiu um palácio feito de palavras e determinações. Equipou-o com o mármore das citações elevadas, cercou-se de uma biblioteca de boas intenções, que sugeria veneráveis jardins suspensos. Tudo para seu refúgio. Deste esconderijo único ela observava o mundo. Muito embora, por pouco não se perdeu totalmente. “Estou muito bem aqui sozinha... O mundo nunca me alcançará!”. Como de fato assim ocorreu durante anos seguidos. Até que Angelimércia conheceu o amor em toda sua plenitude. Inicialmente ela não quis se entregar para Antonino. Negou-lhe a chave de seu coração. Atapetou de pedras, como de paralelepípedos, o caminho que o lado de fora do mundo entrega para o acesso de seu foro intimo. Até que Antonino lhe oferece um carinho mais ousado, com a respiração arfante, um minotauro a percorrer os subterrâneos de seu tão bem resguardado palácio. Esse homem absurdamente prático, de chofre, ele vem, dá-lhe beijos demorados, quando em perdição absoluta, suspende seu vestido, ajoelha-se, faz-lhe carícias supremas, beija ternamente seu púbis por sobre a calcinha de rendas, que Angelimércia se recusou a tirar. Este jogo de amor ocorria repetidamente. Eles já sabiam que tudo isto se repetiria. Bastava um olhar. Um pedido quase secreto de cada um. Vistos ao sim. Aprovações de ambas as partes. É então chegado o inadiável. Antonino lhe penetra avidamente. Ambos querem aquilo. Desejam pela estocada aflita. Carne concorrendo com carne. O gozo. As determinações que se aplicam. A conversa de travesseiro. Conselhos para que um nunca perca o outro. No entanto Antonino foi chamado para a guerra. Angelimércia voltou a se esconder no seu castelo de letras. Lia. Pensava. Escrevia cartas. Lia. Pensava. Escrevia cartas. Lia. Pensava. Escrevia cartas... Isso Angelimércia fez até que recebeu a decisiva carta. Esta vinda com o timbre dos Estados Unidos do Brasil. Ali, entre desculpas oficiosas, a notícia de que Antonino sucumbira à serviço da nação. “Meu Antonino morreu!”. Isto apenas ela suspira. Então Angelimércia decide também morrer. Toma de um paralelepípedo e anda até a ponte do Rio Perequê. Eis em suas mãos o frisson e um pequeno artefato grosseiro, ao uso que se propõe, com massa de dois quilos de granito, cortado de forma retangular, quando amarrado ao pescoço por uma corda, abandonado de um ponto distante da água de um rio, desde o patamar de uma ponte, da qual, vem a cair verticalmente, sob a ação da força-peso, acaba por vencer a resistência do ar, arrastando atrás de si um corpo, o de Angelimércia. Ao baque surdo. Uma estação de trem ela vislumbra no fundo do rio. Peixes passam pela locomotiva. Curimbatás, dourados, tainhas, lambaris e guarús. Angelimércia corre para comprar a passagem para a cidade de Éfeso. O vagão começa a ficar apinhado de pessoas vestidas de branco. Murmúrios aquáticos de felicitações por ela estar indo também para Éfeso. Porém, ela vê um vulto escuro que a apanha. Logo ela está outra vez experimentando a luz do sol. Um camafeu de luz que ela assiste lhe chegar aos poucos. Um homem de terno, todo ensopado por pular no rio, lhe havia salvado. Angelimércia nem parece acreditar. Foi nos braços desse homem viril que ela adentra ao pequeno hospital da cidade. No dia seguinte ele lhe traz flores. No dia após aquele, mais flores. Depois mais flores ainda, com um cartão perfumado e um pedido de namoro. Angelimércia aceita. Ela está novamente autorizada a recarregar de luz a sua alma feita de sol.


Beto Palaio

3 comentários:

Etti Blanchard disse...

ae beto !! vamos meter bronca nessa idéia de revista literaria dvulgar os poetas arte RIO CAPITAL DA POESIA e ganhar grana ! ok vamos levar p frente e sempre essa idéia

Etti Blanchard disse...

http://etienneblanchard.blogspot.com.br/

Beto Palaio disse...

Com certeza, Etti... Vamos ver se achamos quem tope fazer isto... A administração de uma revista exige muita estrutura e grana inicial... Se houver isso, tudo bem... Tenha um bom dia de arte e poesia!